O primeiro debate do segundo turno das eleições presidenciais de 2026 foi marcado por ataques, provocações e divergências sobre segurança pública, economia e saúde. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) se enfrentaram na noite de domingo (18), em evento promovido pelo Grupo Bandeirantes, a uma semana da votação que definirá o próximo presidente da República, marcada para 25 de outubro.
O confronto direto foi inédito entre os dois candidatos nesta eleição. Ambos haviam ficado de fora do primeiro debate presidencial promovido pela Band, em 23 de agosto, durante o primeiro turno.
Ao longo de três blocos, os presidenciáveis discutiram propostas para o país e trocaram acusações sobre corrupção, investigações, endividamento público e políticas sociais. Segurança pública, produtividade, relações com os Estados Unidos, redução da maioridade penal e mudanças na escala de trabalho 6×1 também entraram na disputa. Pelas regras do debate, cada candidato dispunha de um banco de 15 minutos para administrar durante os confrontos diretos.
Segurança pública abre confronto entre candidatos

A primeira pergunta abordou o avanço do crime organizado, o domínio territorial de facções e milícias e a redução da maioridade penal.
Flávio Bolsonaro afirmou que, caso seja eleito, declarará “guerra ao narcoterrorismo” e classificará o Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando Vermelho e as milícias como organizações narcoterroristas, conforme previsto em seu plano de governo. O senador prometeu recuperar áreas dominadas por criminosos e endurecer as punições, citando a Lei Antifacção e a possibilidade de líderes de organizações criminosas permanecerem presos por até 80 anos.
“Eu vou recuperar cada metro. Eu vou recuperar cada rua. Eu vou recuperar cada bairro. Eu vou recuperar cada cidade. Eu vou recuperar cada território que foi tomado do povo brasileiro”, declarou.
O candidato também afirmou que criminosos seriam “presos ou neutralizados pelas nossas polícias” e acusou o governo atual de adotar uma política de desencarceramento.
Lula, por sua vez, lembrou que a Constituição de 1988 atribui aos estados responsabilidades pela segurança pública e defendeu a ampliação da participação federal por meio da PEC da Segurança Pública. Segundo o presidente, se a proposta for aprovada pelo Senado, será criado o Ministério da Segurança Pública.
O petista também citou a Lei Antifacção, sancionada por ele em março, que ampliou penas e instrumentos de investigação. Defendeu ainda uma atuação integrada entre União, estados e municípios para recuperar territórios dominados por organizações criminosas e milícias, além de combater os integrantes de maior poder econômico envolvidos nas atividades ilegais.
“Para o trabalhador e para a comunidade, proteção. Para o bandido, prisão”, afirmou Lula. O presidente encerrou sua resposta dizendo que seu governo fez, nos últimos quatro anos, “muito mais” no combate ao crime organizado do que havia sido feito anteriormente no país.
Economia e dívida pública dividem candidatos
Na discussão econômica, os candidatos foram questionados sobre o crescimento do país, a dívida pública, os juros, a carga tributária e a recuperação do grau de investimento.
Lula defendeu o estímulo à circulação de renda e aos pequenos negócios como caminhos para impulsionar a economia. Citou políticas voltadas aos Microempreendedores Individuais (MEIs), afirmou que pretende ampliar os incentivos ao setor e mencionou investimentos nas economias digital, verde e criativa. O presidente também declarou que o Brasil está próximo de recuperar o grau de investimento.
Flávio Bolsonaro questionou a situação financeira das famílias e os preços dos alimentos. “A sua vida melhorou ou piorou? A comida está mais cara ou está mais barata?”, perguntou.
O senador afirmou que o resultado do primeiro turno, no qual terminou à frente de Lula, provocou uma queda nas taxas de juros futuros. Também criticou o crescimento da dívida pública, atribuindo o endividamento ao que chamou de “gastança” do governo petista.
Flávio prometeu controlar os gastos públicos para reduzir a dívida e ajudar famílias endividadas. Seu plano econômico prevê um ajuste fiscal com cortes de despesas, embora parte das medidas ainda não tenha sido detalhada.
“Eu vou ajudar você a pagar a sua dívida. Eu vou ajudar o governo a pagar a própria dívida”, afirmou. O candidato também declarou que combater a corrupção e retirar Lula da Presidência seria “o primeiro passo” para controlar o Orçamento.
Corrupção e investigações dominam embate direto
No primeiro confronto direto, Lula questionou Flávio sobre um voto dado pelo então deputado estadual, em 2009, contra a ampliação da licença-maternidade de servidoras. O senador respondeu que não tinha “absolutamente nada contra as mulheres”, mas não explicou o voto.
Flávio, em seguida, questionou Lula sobre a empresária e lobista Roberta Luchsinger e as investigações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente.
Roberta e Lulinha são investigados em três inquéritos no Supremo Tribunal Federal (STF), que apuram suspeitas de tráfico de influência em órgãos federais para beneficiar empresários. Roberta nega irregularidades e afirma que sua relação com Lulinha é de amizade.
Em nota divulgada no sábado (17), o Palácio do Planalto afirmou que Lula nunca teve interlocução com Roberta, nunca recebeu demandas dela e desconhece as supostas tratativas mencionadas pela empresária. O governo também declarou que não existe contrato federal com ela.
O debate avançou para o esquema de descontos indevidos em benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Flávio acusou o governo de não proteger os aposentados. Lula respondeu que as fraudes foram descobertas e combatidas durante sua gestão. A Polícia Federal indiciou 48 pessoas na primeira investigação sobre o esquema.
O presidente também cobrou explicações sobre um pedido de R$ 134 milhões feito por Flávio ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme “Dark Horse”, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.
A Polícia Federal investiga suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção relacionadas ao financiamento. Flávio é investigado no inquérito, e, na sexta-feira (16), a PF solicitou ao ministro André Mendonça, do STF, mais 90 dias para concluir a investigação. Em entrevista à TV Globo no mesmo dia, o senador afirmou que o contrato de R$ 134 milhões “não foi cumprido” e negou irregularidades.
Na sequência, Flávio voltou a criticar os juros e acusou Lula de utilizar o Bolsa Família com objetivos eleitorais. O presidente retomou a pauta da segurança pública e questionou o adversário sobre sua posição em relação à política de armas e a episódios de violência no Rio de Janeiro.
A escala 6×1 também entrou no confronto. Lula perguntou se Flávio pretendia propor mudanças no fim desse modelo de jornada. O senador respondeu que não. Ele votou a favor do fim da escala 6×1 no Senado, depois de ter se posicionado contra a proposta.
Na parte final do embate, Lula questionou a proximidade de Flávio com o presidente argentino Javier Milei e perguntou se o senador pretendia adotar no Brasil o modelo econômico da Argentina. Flávio não respondeu diretamente e afirmou que governos de direita precisam “consertar” problemas deixados por administrações de esquerda. Também prometeu um “tesouraço” na corrupção do governo Lula.
Saúde: SUS, filas e propostas para atendimento
O segundo bloco começou com perguntas sobre as filas para consultas especializadas, exames e cirurgias no Sistema Único de Saúde (SUS), além dos recursos necessários para ampliar o atendimento.
Flávio Bolsonaro defendeu a criação de um prontuário eletrônico único, com informações das redes municipal, estadual, federal e privada integradas pelo CPF. Também propôs ampliar o uso de telemedicina, tecnologia e inteligência artificial para agilizar consultas e procedimentos.
O senador afirmou que pretende levar ao SUS o que chamou de “padrão Einstein” e voltou a dizer que escolheria o médico Claudio Luiz Lottenberg para comandar o Ministério da Saúde.
Lula criticou a gestão da saúde durante o governo Jair Bolsonaro, especialmente na pandemia de Covid-19, e questionou se a proposta do adversário significaria privatizar o SUS. O presidente afirmou que sua gestão trabalha para recuperar o sistema público e criticou a escolha de Lottenberg, alegando que o adversário não conhece suficientemente a saúde pública.
Saída temporária de presos e redução da maioridade penal
No confronto seguinte, Flávio questionou Lula sobre a saída temporária de presos e citou crimes cometidos por detentos beneficiados pela medida.
O presidente defendeu a manutenção da saída temporária para presos com bom comportamento como instrumento de ressocialização, mas afirmou que pessoas condenadas por crimes violentos não deveriam receber o benefício. Lula também declarou que o sistema prisional precisa buscar a recuperação dos detentos.
Flávio voltou a abordar o fim da escala 6×1 e disse ter mudado de posição após ouvir trabalhadores durante a campanha. Lula respondeu com críticas ao histórico profissional do adversário e prometeu continuar aumentando o salário mínimo acima da inflação.
Em outra rodada sobre saúde, o presidente voltou a criticar a gestão Bolsonaro na pandemia, defendeu o SUS e citou a ampliação do número de médicos e iniciativas para reduzir o intervalo entre o diagnóstico e o tratamento do câncer.
Flávio reconheceu que a saúde não foi uma área em que o governo de Jair Bolsonaro teve “o melhor resultado”, atribuiu parte das dificuldades à pandemia e afirmou que o ex-presidente “deu o seu melhor”. Em seguida, apresentou uma proposta para renegociar dívidas de pessoas e empresas.
Produtividade, tecnologia e relações com os Estados Unidos
No terceiro bloco, os candidatos discutiram como aumentar a produtividade e a renda no Brasil.
Lula afirmou que o avanço da produtividade depende de investimentos empresariais em inovação. Citou a política Nova Indústria Brasil e defendeu aportes em economia digital, data centers, economia criativa e economia verde, além da formação de profissionais em áreas como engenharia e matemática.
Flávio propôs tratar a internet como infraestrutura e ampliar a conexão de escolas, hospitais e aldeias indígenas. Também prometeu criar uma plataforma para aproximar trabalhadores e departamentos de recursos humanos de empresas, além de oferecer capacitação e financiamento pela Caixa para quem deseja abrir um negócio.
No confronto direto, Lula questionou a relação de Flávio com os Estados Unidos e perguntou se, em um eventual governo, o senador entregaria aos americanos a exploração de terras raras brasileiras.
Flávio negou ter atuado para prejudicar empresas brasileiras com tarifas americanas e afirmou que viajou aos Estados Unidos para defender empresas e produtos do país.
Lula insistiu no tema e acusou a família Bolsonaro de subordinação aos interesses americanos. Em seguida, propôs que os dois candidatos abrissem suas contas bancárias e seus sigilos telefônicos antes da eleição.
Flávio declarou não ter “absolutamente nada a esconder” e defendeu a cooperação entre países das Américas no combate às organizações criminosas, além de maior atuação das Forças Armadas nas fronteiras.
Maioridade penal e endurecimento de penas
Na última rodada de confronto, Flávio defendeu a castração química de estupradores, a redução da maioridade penal e penas mais duras para crimes como roubo de celular.
O senador apoia uma emenda apresentada pela oposição à PEC da Segurança que prevê reduzir a maioridade penal para 16 anos na maioria dos crimes e para 14 anos em casos específicos. Flávio também assina a proposta.
Lula passou a defender, na reta final da campanha, a redução da maioridade penal para 16 anos em casos de crimes hediondos. O presidente explicitou essa posição na quinta-feira (15), em entrevista à TV Globo.
Durante o debate, Lula citou medidas de seu governo para bloquear celulares roubados e voltou à pauta econômica. Defendeu políticas de crédito e renegociação de dívidas, argumentando que o crescimento econômico é a melhor forma de reduzir o peso do endividamento público. Também mencionou políticas de educação e inclusão.
Ao fim do confronto, o presidente repetiu o desafio para que Flávio abrisse suas contas bancárias e o conteúdo de seu celular.
Considerações finais reforçam estratégias eleitorais
Lula foi o primeiro a fazer as considerações finais. Após interrupções no início de sua fala, os mediadores pediram que Flávio e a plateia permitissem que o presidente se pronunciasse.
Lula agradeceu aos apoiadores e defendeu a continuidade de seu governo. Afirmou que o Brasil está preparado para crescer mais, destacou a recuperação da indústria e criticou privatizações, defendendo estatais “fortes e produtivas”.
Flávio afirmou que não faria promessas que não pudesse cumprir. Voltou a defender a criação do Ministério da Prosperidade e suas propostas para a segurança pública, dizendo que pretende colocar o cidadão no “centro do governo”. O senador encerrou sua participação pedindo votos para o segundo turno.
Após as duas falas, os mediadores encerraram o debate.
Pesquisas indicam disputa apertada pela Presidência
O confronto ocorreu em um cenário de equilíbrio nas pesquisas eleitorais. Levantamento Datafolha divulgado na quinta-feira (15) mostrou Flávio Bolsonaro com 47% das intenções de voto, contra 45% de Lula.
Já a pesquisa Quaest, divulgada na quarta-feira (14), apontou 46% para Flávio e 44% para o presidente. Nos dois levantamentos, a diferença configura empate técnico.
No primeiro turno, Flávio terminou à frente, com aproximadamente 2,2 milhões de votos a mais que Lula, uma diferença de 1,87 ponto percentual.
Com a votação marcada para 25 de outubro, as duas campanhas apostam nos próximos debates e na mobilização nas ruas para conquistar eleitores. A equipe de Lula pretende destacar medidas de apelo popular, enquanto aliados de Flávio planejam intensificar as respostas aos ataques do presidente e dar mais espaço às propostas do senador.



