Um projeto anunciado pelo governo de Donald Trump para utilizar energia da usina hidrelétrica de Itaipu no abastecimento de empresas de inteligência artificial pode diminuir a quantidade de eletricidade disponível para o mercado brasileiro nos próximos anos. Especialistas em energia alertam que o aumento do consumo no Paraguai, aliado à chegada de novos empreendimentos de grande porte, tende a reduzir o excedente que atualmente é destinado ao Brasil.
O alerta ocorre após o anúncio, na quarta-feira (21), de uma parceria entre a empresa americana Crusoe, especializada em infraestrutura para inteligência artificial, e a desenvolvedora paraguaia de projetos de energia e infraestrutura Araico. A primeira fase do empreendimento tem previsão de entrar em operação em meados de 2027.
A estrutura de processamento de dados será instalada no Paraguai e utilizará eletricidade produzida por Itaipu. Segundo o governo americano, o empreendimento atenderá clientes dos Estados Unidos e da América Latina. Até o momento, porém, não foi informada a quantidade de energia que será contratada.
Pelo Tratado de Itaipu, Brasil e Paraguai têm direito, cada um, à metade da eletricidade gerada pela usina binacional. Quando um dos países não utiliza toda a sua parcela, a energia excedente pode ser disponibilizada para compra pelo outro.

Historicamente, o Paraguai consumia apenas uma pequena parte da eletricidade a que tinha direito e destinava o restante ao mercado brasileiro. Esse cenário vem mudando: atualmente, o país utiliza cerca de 74% de sua metade da produção, enquanto os 26% restantes são destinados ao Brasil.
Com o crescimento da demanda paraguaia, especialistas avaliam que a parcela disponível para o mercado brasileiro poderá diminuir ainda mais.
Para Victorio Oxilia, doutor em Energia e professor da Faculdade Politécnica da Universidade Nacional de Assunção, no Paraguai, a redução do excedente já está em andamento e pode ganhar velocidade com a instalação de novos consumidores.
“O que dá para prever é que talvez a quantidade disponível de energia para o Brasil diminua bastante. É muito difícil que suma totalmente, mas vai diminuir bastante”, afirma Oxilia.
Segundo o especialista, o aumento da demanda por eletricidade no Paraguai se intensificou a partir de 2021 e 2022, impulsionado principalmente pela instalação de empresas que consomem grandes volumes de energia, como as dedicadas à mineração de criptomoedas.
O professor de Relações Internacionais da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), Tomaz Espósito, também considera que a chegada de novos empreendimentos pode reduzir a oferta destinada ao Brasil e tornar mais difíceis as negociações entre os dois países.
“Com um novo consumidor, as negociações do Anexo C se tornarão mais complexas, pois o Paraguai poderá ter outros consumidores, como essas empresas. No curto prazo, isso significa uma possibilidade de redução da oferta de energia ao mercado brasileiro”, explica.
O Anexo C do Tratado de Itaipu estabelece as regras financeiras e comerciais relacionadas à eletricidade produzida pela hidrelétrica compartilhada. O documento define, entre outros aspectos, como são calculados os custos da energia e a compensação paga quando um dos países disponibiliza ao outro a parcela que não consome.
O Brasil não participou das negociações anunciadas pelo governo americano. A usina de Itaipu informou que não esteve presente no encontro entre as autoridades e que a utilização da energia destinada a cada país é uma decisão nacional, de acordo com as regras do tratado binacional.
Especialistas não preveem desabastecimento imediato
Apesar da possibilidade de redução da oferta de energia de Itaipu ao Brasil, os especialistas não apontam risco imediato de desabastecimento. Oxilia avalia que a diversidade de fontes de geração do sistema elétrico brasileiro pode limitar os efeitos da mudança.
“O Brasil vai sentir essa redução de energia disponível, porém tem um sistema tão grande, com tantas opções hoje em dia, que esse impacto vai ser mínimo”, afirma.
Espósito, por sua vez, destaca a importância da eletricidade gerada pela usina para o abastecimento da região Centro-Sul do país. Segundo ele, mesmo com o excedente de energia brasileiro e o potencial de geração solar, a redução gradual da parcela proveniente de Itaipu merece atenção.
“Ainda que o Brasil tenha um superávit de energia, com grande potencial solar, uma reserva importante de energia do Centro-Sul vai diminuir ao longo do tempo.”
Ainda não existe uma estimativa oficial sobre quanto o empreendimento poderá reduzir a quantidade de eletricidade disponibilizada ao Brasil. Também não há confirmação de eventuais efeitos sobre as tarifas pagas pelos consumidores brasileiros.
Acordo integra aproximação entre Estados Unidos e Paraguai
A parceria para instalar a estrutura de computação faz parte de uma série de iniciativas anunciadas pelo Departamento de Estado americano para ampliar os investimentos dos Estados Unidos no Paraguai.
Durante a visita de Landau, uma delegação empresarial americana discutiu oportunidades de negócios em setores como tecnologia, minerais críticos, infraestrutura fluvial e logística, segundo o governo dos Estados Unidos.
Além do projeto relacionado à energia de Itaipu, a empresa americana Uranium Energy Corp. anunciou um investimento de US$ 12 milhões para desenvolver uma de suas concessões de urânio no Paraguai.
Na área de segurança, os dois governos assinaram um acordo de assistência para interceptação aérea. A iniciativa busca ampliar a capacidade paraguaia de monitorar e proteger seu espaço aéreo contra voos suspeitos de transportar drogas.
Os Estados Unidos também anunciaram US$ 5,5 milhões em assistência para ações de combate ao financiamento do terrorismo e ao narcotráfico, além do reforço da segurança nas fronteiras. Outros US$ 6,25 milhões serão destinados à cooperação bilateral contra o crime organizado transnacional.
Os dois países iniciaram ainda negociações para estabelecer um acordo de cooperação voltado ao uso pacífico da energia nuclear.
Caso o entendimento entre em vigor, será criado um marco legal para permitir que empresas americanas exportem equipamentos e materiais nucleares para o Paraguai, sob regras de segurança e não proliferação.



