O mercado financeiro brasileiro registrou fortes oscilações nesta segunda-feira (26), após a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para um quarto mandato presidencial. Por volta das 10h40, o dólar subia 11,05%, cotado a R$ 5,5448, depois de atingir a máxima de R$ 5,6048. No mesmo horário, o Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, recuava 17,34%, aos 169.516 pontos.
A intensidade das perdas levou a B3 a interromper as negociações por 30 minutos logo no início do pregão. O mecanismo, conhecido como circuit breaker, é acionado quando o Ibovespa registra queda superior a 10% em relação ao fechamento anterior. A medida busca conter movimentos desordenados e permitir que investidores reavaliem suas decisões antes da retomada dos negócios.
A vitória de Lula foi o principal fator de atenção dos investidores. O presidente foi reeleito com 51,78% dos votos válidos, contra 48,22% do senador Flávio Bolsonaro (PL), considerando quase 100% das urnas apuradas. Como a maioria das pesquisas divulgadas nas semanas anteriores apontava vantagem de Bolsonaro no segundo turno, o resultado surpreendeu parte do mercado.
Com o novo cenário político, investidores passaram a reavaliar as perspectivas para os juros, o câmbio, a Bolsa de Valores e as contas públicas. Os contratos de juros futuros, que refletem as expectativas para as taxas nos próximos meses e anos, registravam forte alta nos vencimentos mais longos.

O analista da Daycoval Corretora Gabriel Mollo afirmou que a condução da política fiscal será determinante para a confiança dos agentes econômicos durante o quarto mandato de Lula. Segundo ele, a trajetória da dívida pública, o controle das despesas e a credibilidade das metas fiscais estarão entre os principais pontos de atenção.
O economista-chefe da Lev DTVM, Jason Vieira, destacou que a equipe econômica sinaliza uma proposta de emenda à Constituição (PEC) para revisar gastos obrigatórios e buscar o centro da meta fiscal, em uma tentativa de recuperar a confiança do mercado.
Pelas regras da B3, se a queda do Ibovespa atingir 15% após a retomada das negociações, o circuit breaker poderá ser acionado novamente, desta vez com interrupção de uma hora. Caso o recuo chegue a 20%, há previsão de uma terceira paralisação.
O impacto também apareceu nos ativos brasileiros negociados no exterior. Antes da abertura dos mercados nos Estados Unidos, o EWZ, principal fundo negociado em Nova York que acompanha ações brasileiras, recuava 26,16%. Na sessão anterior, o fundo já havia acumulado queda superior a 19%.
Além das incertezas econômicas, a possibilidade de questionamentos judiciais sobre o processo eleitoral também entrou no radar dos investidores. A decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Cristiano Zanin de prorrogar o horário de votação das 17h para as 19h, devido a problemas no deslocamento de eleitores em várias cidades, poderia gerar questionamentos na Justiça.
Após a derrota, Flávio Bolsonaro não reconheceu o resultado e afirmou que pedirá a anulação do pleito. Para William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, a possibilidade de judicialização do resultado e outros desdobramentos políticos pode ampliar a incerteza e afetar os preços dos ativos.
A última vez que a B3 acionou o circuit breaker havia sido durante a pandemia de Covid-19, em 2020, quando a preocupação com o coronavírus e a deterioração dos mercados internacionais provocaram quedas expressivas. Naquele ano, o mecanismo foi acionado seis vezes em março, um episódio inédito na história da Bolsa brasileira.
Outros períodos marcantes de utilização do mecanismo ocorreram em 1997, durante a crise asiática, quando o Ibovespa caiu 10,19%, e em 1999, durante a desvalorização do real, com recuo de 10,29%. Em 2008, durante a crise do subprime nos Estados Unidos, foram registradas seis interrupções em menos de um mês.
Também houve quedas expressivas em outras datas: em 24 de abril de 2020, o Ibovespa recuou 5,45% após a saída de Sérgio Moro do Ministério da Justiça; em 28 de outubro de 2020, caiu 4,25%, em meio ao aumento dos casos de Covid-19 e à proximidade das eleições americanas; em 22 de fevereiro de 2021, perdeu 4,87% após a intervenção do governo de Jair Bolsonaro na Petrobras; e, em 5 de dezembro de 2025, recuou 4,31% após o anúncio da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro às eleições de 2026.
No mercado cambial, o dólar acumulava queda de 0,17% na semana, mas apresentava alta de 10,06% no mês e de 27,28% no ano, conforme os dados divulgados na manhã desta segunda-feira.
No cenário internacional, os preços do petróleo também estavam no radar dos investidores, diante dos esforços diplomáticos para aliviar a guerra entre os Estados Unidos e o Irã e das preocupações com possíveis interrupções no fornecimento da commodity. Por volta das 10h40, o barril do Brent, referência internacional, caía 1,20%, a US$ 115,32. O West Texas Intermediate (WTI), referência nos Estados Unidos, recuava 1,74%, cotado a US$ 101,47.
A agenda econômica da semana também concentrava as atenções. O Boletim Focus, que reúne as projeções do mercado para a economia brasileira, ainda não refletia a reação à vitória de Lula, pois os dados foram coletados até sexta-feira. Indicadores de confiança do investidor e de investimento estrangeiro direto também estavam no radar.
No exterior, investidores aguardavam decisões de política monetária de importantes bancos centrais. A principal expectativa era pela reunião do Federal Reserve (Fed), o banco central americano, cuja decisão estava prevista para quarta-feira e poderia incluir uma nova alta de juros. Para o Banco Central Europeu (BCE) e o Banco do Japão (BoJ), a expectativa do mercado era de manutenção das taxas.
As bolsas internacionais apresentavam movimentos distintos. Nos Estados Unidos, os três principais índices de Wall Street operavam em alta, enquanto investidores repercutiam o pedido de oferta pública inicial de ações (IPO) da Anthropic e aguardavam a decisão do Fed. Por volta das 10h40, o Dow Jones subia 0,38%, o S&P 500 avançava 0,21% e o Nasdaq Composite registrava alta de 0,27%.
Na Europa, a maioria dos índices também operava no campo positivo, em meio à expectativa pela reunião do BCE. O DAX, da Alemanha, subia 0,99%; o CAC-40, da França, avançava 0,82%; e o FTSE 100, do Reino Unido, registrava alta de 0,55%.
Já na Ásia, os mercados fecharam sem direção única, com investidores adotando cautela diante da agenda de decisões dos bancos centrais. O índice de Xangai (SSEC) subiu 0,19%, enquanto o CSI300, que reúne grandes empresas chinesas, caiu 0,04%. No Japão, o Nikkei recuou 0,80%, e o Kospi, da Coreia do Sul, perdeu 1,46%. Em Hong Kong, o Hang Seng avançou 0,51%.



