Dois estudantes de 19 anos do curso de Medicina do Instituto Master de Ensino Presidente Antônio Carlos (Imepac), em Araguari, no Triângulo Mineiro, são alvo de um processo administrativo disciplinar após supostamente ofenderem colegas bolsistas em um grupo de WhatsApp. As mensagens foram enviadas na noite de domingo (25), após o resultado das eleições presidenciais.
Os nomes dos envolvidos não foram divulgados para preservar a identidade das vítimas. Gravações de tela das conversas mostram áudios enviados por volta das 21h50 no grupo da turma de Medicina.
Nas mensagens, os estudantes atacaram colegas que recebem bolsas do Programa Universidade para Todos (Prouni), utilizam o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) ou vendem produtos para ajudar a pagar os estudos e as despesas de moradia na cidade.
Um dos áudios contém insultos direcionados a estudantes que vendem trufas e críticas aos beneficiários de programas de acesso ao ensino superior. Em outra gravação, uma estudante também utiliza ofensas contra colegas identificados como apoiadores do PT.

Na manhã de quarta-feira (28), foi registrado um boletim de ocorrência por difamação contra os responsáveis pelas mensagens. Até a última atualização das informações, não havia confirmação sobre a abertura de inquérito pela Polícia Civil.
Bolsista relata humilhação após mensagens
Uma estudante de 21 anos, natural de Uberlândia, ingressou no Imepac no início de 2026 e vende trufas para ajudar a custear sua permanência em Araguari. Ela preferiu não se identificar e afirmou ter se sentido diretamente atingida pelas mensagens.
“Foi discriminação socioeconômica pura. Antes das eleições, muito provavelmente eu já não era vista com bons olhos, porque se eu nem cheguei a me posicionar e eles foram tão cruéis, acredito que era um posicionamento que eles já tinham”, relatou.
A jovem afirmou que não havia manifestado publicamente suas preferências políticas durante a campanha. Após o resultado do segundo turno, publicou uma foto no Instagram declarando seu posicionamento.
Segundo ela, figurinhas ofensivas contra eleitores do PT já circulavam no grupo antes do primeiro turno. Depois da vitória de Lula, as mensagens teriam se tornado mais agressivas, levando outros estudantes a tentar conter os ataques.
A estudante também destacou a importância das políticas públicas de acesso ao ensino superior para conseguir cursar Medicina.
“A única coisa que me permite estudar o curso dos meus sonhos é essa política pública de acesso à universidade”, afirmou.
Ela contou que sempre manteve uma relação respeitosa com os colegas e que não esperava ser alvo das ofensas.
“Eu me senti muito humilhada, não tinha como desvincular a minha imagem, era sobre mim que eles estavam falando. Mas também sobre vários outros estudantes bolsistas que se sentiram diminuídos e desrespeitados. Foi muito triste. Em momento nenhum eu desrespeitei ninguém, sempre fui muito discreta. Chorei bastante e busquei apoio da minha família e do meu namorado”, disse.
Após divulgar o caso e denunciá-lo à instituição, a jovem afirmou que outros estudantes relataram situações semelhantes. Uma segunda bolsista também declarou ter se sentido ofendida e avaliou que divergências políticas foram utilizadas para atacar alunos que recebem auxílio financeiro para cursar Medicina.
“Eles se sentem no direito e não dá para passar impune. A faculdade precisa ser mais rígida com essas pessoas”, afirmou.
Imepac abre processo disciplinar
Em nota divulgada nas redes sociais, o Imepac repudiou manifestações de intolerância e discriminação motivadas por convicções políticas ou condição socioeconômica. A instituição informou que instaurou um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) para apurar os fatos e avaliar as medidas cabíveis, respeitando as normas internas e o direito de defesa.
O centro universitário também declarou que oferece acolhimento e suporte aos estudantes atingidos e reafirmou o compromisso com a liberdade de expressão, a pluralidade de ideias e o respeito às diferenças.
O Diretório Acadêmico Diogo Guimarães publicou uma nota de repúdio nas redes sociais, que recebeu mensagens de apoio de outros alunos.
Até a última atualização das informações, a instituição não havia esclarecido quais punições poderão ser aplicadas aos estudantes, se a expulsão está entre as possibilidades avaliadas ou quais serão os próximos encaminhamentos do processo.



