Mesmo com Selic parada em 15%, empréstimos encareceram (e pode ser culpa das bets)

Mesmo com a Selic congelada em 15% desde junho, metade das principais linhas de crédito pessoal do país encareceu, segundo levantamento do Valor Investe com dados do Banco Central. Especialistas afirmam que, apesar da estabilidade na taxa básica, os bancos estão precificando uma inadimplência crescente — e um dos fatores por trás desse aumento é o avanço das apostas esportivas no orçamento das famílias.

Desde o aumento da Selic para 15%, os juros para aquisição de outros bens passaram de 40,76% ao ano para 48,84%. O crédito pessoal não consignado subiu de 74,92% para 89,26%. O consignado privado avançou de 44,75% para 46,78%, enquanto o parcelado do cartão de crédito saiu de 168,83% para 177,27% ao ano.

Por outro lado, o consignado do setor público e do INSS permaneceu praticamente estável, e as taxas do cheque especial e do financiamento de veículos caíram.

Segundo o professor Alexandre Chaia, do Insper, a alta nos juros está diretamente ligada ao aumento da inadimplência esperada. A Peic/CNC registrou recorde: 13% das famílias afirmam não ter condições de pagar suas dívidas, e a inadimplência geral chegou a 30,5%. Tudo isso ocorre em um contexto de desemprego em queda histórica, o que indica que a perda de renda não é, desta vez, o principal vilão.

A explicação que ganha força entre especialistas é o impacto das apostas esportivas. Com cerca de 23 milhões de brasileiros apostando em 2024, muitos têm redirecionado renda para plataformas de apostas, reduzindo gastos essenciais e até atrasando dívidas. Um estudo da SBVC e AGP Pesquisas revela que 63% dos apostadores comprometem parte da renda com bets.

Supermercados já sentem queda no consumo à vista, e pesquisadores afirmam que muitas pessoas têm tratado as apostas como forma de investimento, o que agrava o problema.

Para os próximos meses, analistas apontam que, mesmo com perspectiva de queda da Selic, os juros não devem recuar de forma significativa. Linhas com garantia devem ficar mais baratas, mas empréstimos de risco elevado podem encarecer ainda mais, já que a expectativa de inadimplência para 2026 preocupa as instituições financeiras.

Com incertezas econômicas e eleitorais, alta no uso de renda para apostas e inadimplência persistente, o cenário deve manter bancos cautelosos e juros elevados.

Fonte: VALOR INVESTE