Estoques de munição entram no radar e podem limitar guerra no Oriente Médio

Em meio à escalada da guerra no Oriente Médio, um fator estratégico começa a influenciar diretamente as decisões militares: o nível dos estoques de munição. Estados Unidos, Israel e Irã enfrentam o desgaste acelerado de armamentos após sucessivas ondas de ataques com mísseis e drones, cenário que pode restringir a duração e a intensidade do conflito. Países do Golfo, como o Catar, também já sentem reflexos dessa pressão.

Após a guerra de 12 dias travada em junho do ano passado, EUA e Israel registraram queda significativa nos estoques de interceptadores de mísseis balísticos. O Irã, por sua vez, tenta equilibrar sua capacidade ofensiva com disparos racionados.

Antes do ataque conjunto com Israel contra o Irã, no sábado, o principal general das Forças Armadas dos EUA alertou o presidente Donald Trump sobre os riscos de uma ofensiva prolongada. Entre as preocupações centrais estava o nível de munição disponível. Segundo autoridades e analistas ouvidos nos Estados Unidos, Washington busca enfraquecer rapidamente a capacidade iraniana de lançar mísseis e drones antes que seus próprios interceptadores se esgotem.

O volume exato desses armamentos é confidencial. No jargão do Pentágono, utiliza-se o termo “magazine depth” para medir quantos disparos um sistema pode sustentar antes de reabastecimento. Após anos de confrontos indiretos com o Irã e aliados regionais, esses estoques vêm sendo gradualmente consumidos.

Desde sábado, forças americanas e aliadas intensificaram bombardeios contra lançadores de mísseis, drones e bases aéreas iranianas. Uma autoridade sênior afirmou que o objetivo foi reduzir a capacidade de retaliação de Teerã. Trump declarou em rede social que os bombardeios “pesados e de precisão” continuarão “ao longo da semana ou pelo tempo que for necessário”.

O Comando Central dos EUA informou ter interceptado a maioria dos ataques recentes, mas reconheceu que alguns projéteis atingiram alvos, especialmente em países árabes do Golfo.

Especialistas alertam que os estoques podem se esgotar rapidamente. Kelly Grieco, do Stimson Center, afirmou ao The Wall Street Journal que os sistemas estão sendo consumidos em ritmo superior à reposição.

Entre os equipamentos estratégicos está o sistema THAAD, enviado a Israel em 2024 e também posicionado na Jordânia. A manutenção de interceptadores suficientes é considerada crucial não apenas para o Oriente Médio, mas também para a dissuasão frente à Coreia do Norte e à China.

O Pentágono também tenta recompor estoques dos sistemas Patriot, Standard e dos mísseis antibalísticos SM-3. Além disso, os Estados Unidos vêm empregando mísseis de cruzeiro Tomahawk contra alvos iranianos. Segundo Becca Wasser, do Center for a New American Security, os TLAMs estão sendo utilizados em “ritmo extraordinário”.

Durante o confronto de junho de 2025, entre 100 e 250 interceptadores THAAD foram lançados pelos EUA, volume que pode representar até metade do estoque disponível. Os 80 mísseis SM-3 utilizados equivaleram a quase um quinto do arsenal projetado para o fim de 2025, conforme estimativas do Center for Strategic and International Studies (CSIS).

Diante da pressão, o Pentágono decidiu em janeiro quadruplicar a produção anual de interceptadores THAAD, de 96 para 400 unidades. Especialistas, porém, ressaltam que a recomposição dos arsenais depende da capacidade industrial e da cadeia de suprimentos, o que pode impor limites concretos ao ritmo da guerra.

Fonte: OGLOBO