Alunos de medicina da USP protestam contra estágio de R$ 8,5 mil no HC

Estudantes da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) realizaram um protesto nesta quarta-feira (29/4) contra o programa “Experiência HCFMUSP na Prática”, que cobra R$ 8.450 para alunos de faculdades privadas realizarem estágio no Hospital das Clínicas (HC) e no Hospital Universitário (HU).

A manifestação ocorreu em meio à greve estudantil na USP e contou com bloqueio da Avenida Dr. Arnaldo e caminhada até a Avenida Paulista. Cartazes direcionavam críticas ao reitor da USP, Aluísio Segurado, e ao governador Tarcísio de Freitas.

Segundo os estudantes, o programa representa uma precarização do ensino médico e do atendimento público. Criado em 2023 com 214 vagas, o “Experiência HC” deve chegar a até 2 mil vagas externas em 2026 — número 3,7 vezes maior que o total de estudantes do 4º ao 6º ano da própria FMUSP.

De acordo com Henrick Munhoz Martins, vice-presidente do Centro Acadêmico Oswaldo Cruz (CAOC), alunos da USP relatam perda de espaço para os estudantes pagantes. Entre as denúncias estão deslocamento de internos para funções burocráticas, restrição de acesso a centros cirúrgicos, superlotação em enfermarias e impedimento da participação em exames e discussões clínicas.

Os manifestantes afirmam que o impacto vai além da formação acadêmica e atinge diretamente o atendimento à população. “Quando o acesso à prática vira produto, o paciente vira meio”, declarou Martins, apontando riscos éticos e possíveis prejuízos à qualidade do atendimento no Sistema Único de Saúde (SUS).

Outro ponto central do protesto foi a situação do Hospital Universitário da USP. Segundo o movimento estudantil, o HU perdeu cerca de 30% dos funcionários desde 2014, resultando no fechamento de aproximadamente 25% dos leitos de internação e 40% dos leitos de UTI. Os prontos-socorros funcionam de portas fechadas desde 2017.

Dados do Anuário Estatístico da USP apontam que, em 2024, foram realizadas 32.173 consultas para pacientes do SUS do Butantã, o equivalente a apenas 11,5% do registrado em 2013. O número de leitos também caiu de 233 para 128 no mesmo período.

Os estudantes ainda criticam o modelo financeiro do programa, alegando que bolsas estudantis, pagamento de preceptores e custos operacionais passaram a depender da arrecadação gerada pelo “Experiência HC”. Para o CAOC, a estratégia busca justificar a expansão do projeto mesmo diante do orçamento da universidade.

Além do fim do programa, o movimento cobra revisão curricular do curso de medicina, valorização dos trabalhadores da USP, melhorias nos restaurantes universitários, ampliação do auxílio permanência, melhorias no transporte universitário e garantias acadêmicas para estudantes que aderiram à greve.

A reitoria da USP informou ao Metrópoles que o posicionamento deveria ser solicitado ao Hospital Universitário. O HU foi procurado, mas não respondeu até a publicação da reportagem.

Fonte: METRÓPOLES