Jovem acreditava viver uma história de amor e construção de vida com um investidor estrangeiro, mas investigação revelou que o parceiro operava sob identidade falsa ligada a esquema internacional de espionagem.
Em 2018, a brasileira Stephanie Arcanjo, então com 36 anos, conheceu em São Paulo um homem que se apresentava como Eric Fauchere, suposto investidor com origem franco-portuguesa. O encontro ocorreu quando ela trabalhava como anfitriã em uma casa noturna na Vila Olímpia, na capital paulista. A relação, que começou após insistência do homem, se estendeu por cerca de cinco anos e terminou sob circunstâncias que só mais tarde seriam esclarecidas pela Polícia Federal.
De acordo com o relato da própria Stephanie à revista GQ Brasil, Eric apresentava comportamento discreto e uma rotina aparentemente comum. Dizia trabalhar com investimentos financeiros em casa, demonstrava pouco interesse por elementos da cultura brasileira e tinha como principal hobby o xadrez e o estudo de pedras preciosas. A partir dessa afinidade, os dois chegaram a abrir juntos uma joalheria na Avenida Paulista, chamada Esfel Jewelry, que operava com atendimento sob demanda e vendas online.
O relacionamento avançou ao ponto de o casal passar a viver junto em Brasília, após uma mudança sugerida por ele durante a pandemia. No novo endereço, mantinham rotina social em clubes e eventos esportivos, enquanto Eric alegava viagens frequentes a negócios na Europa e no Oriente Médio. Segundo Stephanie, o comportamento do companheiro começou a mudar após o início da guerra entre Rússia e Ucrânia, em 2022, quando ele passou a demonstrar maior interesse por política internacional e postura mais rígida.
A descoberta da verdadeira identidade ocorreu apenas após a intervenção da Polícia Federal. Stephanie foi intimada a depor e, ao buscar informações sobre o ex-companheiro, encontrou indícios de que ele seria um espião russo operando sob identidade falsa. Segundo a investigação, o homem teria utilizado documentos brasileiros falsificados para construir uma nova identidade, incluindo certidão de nascimento, passaporte e outros registros oficiais.
Relatórios citados na apuração indicam que o caso se insere em um contexto mais amplo de operações de inteligência estrangeira no Brasil, que teria sido identificado como ambiente estratégico para a formação de agentes infiltrados. A prática consistiria em criar identidades legítimas para posterior atuação em outros países, dificultando a detecção por autoridades.
No caso específico de Eric, a investigação aponta que ele teria utilizado dados falsos sobre familiares inexistentes e mantido uma narrativa consistente para sustentar sua identidade ao longo dos anos. A Polícia Federal também apura o possível uso de terceiros e registros indevidos para a criação de documentos.
O relacionamento começou a ruir em 2022, após a prisão de outro suspeito de espionagem russa no Brasil, o que levantou alertas dentro da comunidade de inteligência. Pouco depois, Eric passou a agir de forma mais reservada, orientando mudanças abruptas na vida profissional e pessoal de Stephanie, incluindo o fechamento da joalheria e a mudança de cidade.
Em depoimento, Stephanie relatou episódios de isolamento emocional e mudanças de comportamento do então companheiro, especialmente em relação a temas políticos e sociais. Segundo ela, a convivência passou a ser marcada por distanciamento e decisões unilaterais.
A investigação indica ainda que, após o rompimento, o homem teria desaparecido e possivelmente deixado o Brasil. Até o momento, autoridades não confirmaram oficialmente seu paradeiro, mas há suspeitas de retorno à Rússia. O verdadeiro nome dele teria sido identificado como Aleksander Andreyevich.
A Polícia Federal não comenta investigações em andamento.
Stephanie afirma que só conseguiu compreender a dimensão do caso após ser chamada a depor. Ela relata ter enfrentado um processo emocional difícil ao perceber que viveu anos com uma identidade fabricada.
“É uma ferida muito aberta para mim”, declarou, ao relatar o impacto da descoberta e o processo de reconstrução da própria vida após o fim da relação.
O caso segue como parte de investigações mais amplas sobre redes de espionagem internacional operando com identidades falsas no Brasil.
Fonte: G1


