Comunidade celebra retorno da seleção haitiana ao Mundial após 52 anos e promete apoiar o país no duelo contra o Brasil.
A classificação do Haiti para a Copa do Mundo de 2026, a primeira desde 1974, tem mobilizado haitianos em diferentes partes do mundo. No Brasil, onde vive uma das maiores comunidades haitianas no exterior, o retorno da seleção ao Mundial é celebrado como um momento histórico e desperta orgulho entre os imigrantes.
O significado da conquista é ainda maior porque o Haiti enfrentará justamente o Brasil, seleção que por décadas foi uma das preferidas dos torcedores haitianos. Neste Mundial, porém, a prioridade mudou: a torcida será pela equipe nacional.
Fedo Baccourt, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP), empresário, coordenador e fundador da União Social dos Imigrantes Haitianos, criada em setembro de 2014 na capital paulista, afirma que o apoio da comunidade estará voltado ao Haiti.
“A torcida primeiro será para o Haiti, lógico. Se o Haiti não está jogando, a gente apoia outros times, e o Brasil, no caso, tem uma torcida grande no país. Mas com o Haiti jogando não tem como não torcer”, afirmou.
Morando em São Paulo há 13 anos, Baccourt acompanhará a partida entre Brasil e Haiti na Missão Paz São Paulo, instituição filantrópica dedicada ao acolhimento de imigrantes e refugiados, ao lado da família.
Embora diga que nunca torceu para a seleção brasileira e que sempre teve preferência pela Argentina, influenciado por Diego Maradona, ele conta que sua esposa é “brasileira de coração” e que suas filhas, nascidas no Brasil, sempre apoiaram a seleção brasileira.
Mesmo assim, no confronto entre os dois países, a escolha da família será pelo Haiti.
“No jogo de sexta iremos torcer pelo Haiti. Nós somos ligados à nossa bandeira e história. Espero que os jogadores joguem pela bandeira. A honra vai cantar mais alto do que o amor”, declarou.
Segundo a agência internacional Associated Press (AP), muitos haitianos que tradicionalmente torciam pelo Brasil passaram a colocar a seleção brasileira em segundo plano após a histórica classificação dos Grenadiers, como é conhecida a seleção do Haiti.
Em Porto Príncipe, camisas da equipe nacional passaram a dominar as ruas, enquanto torcedores afirmam que apoiarão o Haiti mesmo diante de uma das seleções mais fortes do futebol mundial.
Baccourt reconhece a superioridade técnica do Brasil, mas considera que a simples presença do Haiti na Copa do Mundo já representa uma conquista histórica.
“Eu queria muito que o Haiti pudesse colocar 10 a 0 no Brasil. Eu espero que o Haiti ganhe. Se o Brasil ganhar, tudo bem. Mas não podemos negar que é uma grande vitória o Haiti participar da Copa. Sabemos que o time não tem a altura do Brasil, e de outros times, como França, Alemanha. Mas será uma honra enorme se fizermos essa virada”, afirmou.
Para ele, a confiança dos haitianos está ligada à própria história do país.
“A gente acredita na luta e força dos haitianos. Fomos o primeiro país livre da escravidão. Napoleão Bonaparte foi a maior força armada. E ninguém imaginava que o Haiti derrotaria o Napoleão. A gente acredita com esse espírito.”
Apesar da expectativa por uma vitória histórica, Baccourt mantém cautela.
“A gente sabe que o Brasil é melhor. Um monte de jogador grande, que joga na Europa, mas não custa acreditar.”
Para muitos haitianos, no entanto, o simples retorno da seleção à Copa do Mundo depois de mais de cinco décadas já representa motivo de orgulho e celebração.
Segundo o relatório Dados Consolidados da Imigração no Brasil 2024, do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra), os haitianos seguem entre as principais nacionalidades da imigração no país.
Em relação aos vistos concedidos, o levantamento aponta cerca de 8 mil autorizações em 2024, contra aproximadamente 9 mil em 2023 e cerca de 4 mil em 2022. O relatório registra uma queda de 11,9% na comparação com o ano anterior. Entre os haitianos predominam os vistos de reunião familiar e de acolhida humanitária.
Nos registros de residência, o cenário permanece estável, com pouco mais de 6 mil registros anuais desde 2022.
O estudo também informa que, em 2024, os venezuelanos lideraram o número de regularizações migratórias, seguidos por bolivianos e argentinos, enquanto os haitianos permaneceram entre os principais grupos sem crescimento expressivo.
Em relação aos pedidos de refúgio, o relatório destaca que muitos processos envolvendo haitianos foram encerrados porque os solicitantes já haviam obtido residência, se naturalizado ou contraído casamento com brasileiros. Em 2024, o número de decisões sobre pedidos de refúgio caiu 51% em relação ao ano anterior.
No mercado de trabalho formal, os haitianos ocuparam a segunda posição em movimentação de trabalhadores estrangeiros em 2024 e ficaram em quarto lugar na geração de empregos, atrás de venezuelanos, cubanos e argentinos. O ano registrou o maior volume da série histórica de postos de trabalho criados para imigrantes desde 2010, com mais de 70 mil vagas.
Na cidade de São Paulo, a Secretaria Municipal da Saúde informou que, até 2025, havia 38.070 haitianos cadastrados na rede municipal de saúde.
Entre as nacionalidades mais atendidas pelo sistema municipal, o Haiti ocupa a quarta colocação, atrás de Bolívia (271.598), Angola (82.728) e Venezuela (60.812), à frente de Paraguai (27.843), Uganda (25.795), Portugal (24.975), Peru (18.646), Nigéria (10.924) e Argentina (10.764).
Fonte: G1


