Colégio em SP que abrigou perseguidos na ditadura relembra 50 anos do Movimento do Custo de Vida

Ato no Colégio Santa Maria marca a memória da Assembleia do Povo de 1976, organizada por mulheres da periferia contra a carestia durante o regime militar.

O Colégio Santa Maria, na Zona Sul de São Paulo, relembra neste sábado (20) os 50 anos da Assembleia do Povo, encontro histórico do Movimento do Custo de Vida (MCV) realizado em 1976, em plena ditadura militar. O local, que chegou a abrigar perseguidos políticos no período, volta a receber participantes históricos, familiares e ativistas em um ato de memória.

A programação inclui roda de conversa com integrantes do movimento, instalação de uma placa comemorativa e apresentação do Grupo de Teatro da Vila Remo. O evento será realizado no mesmo corredor onde ocorreu a assembleia que reuniu cerca de 5 mil pessoas há cinco décadas.

O Movimento do Custo de Vida teve como principal característica a mobilização de mulheres das periferias paulistanas, em sua maioria negras e donas de casa ligadas às comunidades eclesiais de base da Igreja Católica. A articulação começou nos anos 1970 em bairros como Jardim Ângela e M’Boi Mirim, no extremo Sul da capital.

As participantes denunciavam a alta do custo dos alimentos e as dificuldades enfrentadas nas periferias, como falta de escolas, transporte, saneamento e serviços de saúde. A partir dessas demandas, passaram a realizar pesquisas de porta em porta e elaboraram uma carta das “mães da periferia”, que chegou a ser lida no programa de rádio “A Voz do Brasil”.

O documento impulsionou uma campanha de coleta de assinaturas contra a carestia, mobilizando moradores em feiras, praças e igrejas. O movimento chegou a reunir cerca de 1,3 milhão de assinaturas e, em 1978, levou mais de 20 mil pessoas à Praça da Sé em uma manifestação contra o aumento do custo de vida, que terminou em repressão com uso de bombas de gás lacrimogêneo, prisões e feridos.

A pedagoga Luciana Dias, filha da liderança Ana Dias, relembra que cresceu acompanhando a mobilização enquanto a mãe participava das atividades. Ela participará do ato de homenagem ao lado de outros integrantes históricos.

Para Luciana, preservar a memória do movimento é uma forma de manter viva a experiência de organização popular das periferias durante a ditadura e evitar o apagamento dessas narrativas.

A escolha do Colégio Santa Maria para sediar a assembleia em 1976 ocorreu, segundo relatos, pelo apoio de religiosas ligadas às comunidades eclesiais de base e pela estrutura do espaço, que permitia a realização de grandes encontros. Além disso, o colégio também serviu como abrigo para perseguidos políticos nas décadas de 1970 e 1980, acolhidos por integrantes da Congregação das Irmãs da Santa Cruz.

Entre os participantes do ato deste sábado está a irmã Michael Nolan, que integrou o movimento e afirma que relembrar a Assembleia do Povo também serve como reflexão sobre os desafios atuais da convivência democrática e da organização comunitária.

O evento marca a volta simbólica ao espaço onde, há 50 anos, milhares de pessoas se reuniram para discutir a carestia e organizar formas de mobilização popular que se tornaram um marco da resistência civil durante a ditadura militar.

Fonte: G1