Um parecer da Procuradoria-Geral da República (PGR) pode abrir caminho para que o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), determine a abertura de uma investigação específica sobre recursos enviados pelo banqueiro Daniel Vorcaro a fundos no exterior para financiar o filme Dark Horse, que retrata a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O posicionamento foi apresentado pelo procurador-geral da República, Paulo Gonet, ao analisar um pedido de investigação protocolado pelo deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ). A solicitação tem como base um áudio em que o senador Flávio Bolsonaro aparece cobrando recursos de Vorcaro.
No parecer, Gonet afirmou que a apuração não deve ficar sob a relatoria do ministro Alexandre de Moraes, como pretendia o parlamentar, por entender que o tema está relacionado a um procedimento já em andamento sobre o chamado caso Master, conduzido por André Mendonça.
O pedido de Lindbergh buscava vincular o caso ao inquérito que investigava suposta coação e tentativa de obstrução do processo sobre a trama golpista atribuída a Eduardo Bolsonaro. Na semana passada, Eduardo foi condenado por unanimidade pela Primeira Turma do STF a quatro anos e dois meses de reclusão.
Após reportagens publicadas pelo Intercept Brasil, Flávio Bolsonaro reconheceu ter captado R$ 61 milhões de Daniel Vorcaro. Segundo as informações, os recursos foram pagos por uma empresa do ecossistema do Banco Master para um fundo administrado pelo advogado de imigração de Eduardo Bolsonaro.
Ao justificar seu entendimento, Gonet ressaltou que o caso Master já possui relator definido no Supremo, motivo pelo qual considerou inadequada a distribuição da investigação a Alexandre de Moraes.
Segundo a reportagem, nos bastidores também pesou o fato de Moraes ser potencialmente investigado em razão de um contrato de R$ 129 milhões firmado entre sua esposa e o Banco Master. A situação é comparada à do ministro Dias Toffoli, que deixou a relatoria de processos relacionados ao banco após a divulgação de negócios envolvendo familiares e Daniel Vorcaro, além de declarar impedimento para participar de julgamentos sobre o caso na Segunda Turma do STF.
Na noite de segunda-feira (22), Alexandre de Moraes encaminhou o parecer da PGR ao presidente do STF, ministro Edson Fachin, que decidirá o encaminhamento do caso. De acordo com a reportagem, tanto no Supremo quanto na Procuradoria-Geral da República há expectativa de que a investigação sobre Dark Horse seja instaurada em procedimento próprio sob relatoria de André Mendonça.
Entre as linhas de investigação está a suspeita de que parte dos recursos atribuídos ao financiamento do filme possa ter sido utilizada para custear a permanência de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, onde ele vive desde março do ano passado.
Outro ponto que desperta atenção é a produtora responsável pelo longa. A reportagem afirma que a jornalista Karina Ferreira da Gama, proprietária da empresa, nunca havia lançado filmes no Brasil ou no exterior.
Segundo Karina, a produção e a pós-produção da obra já consumiram cerca de US$ 13 milhões, o equivalente a aproximadamente R$ 65,7 milhões na cotação atual. O montante chama atenção por superar os orçamentos de produções brasileiras recentes de destaque, como O Agente Secreto, com custo de R$ 28 milhões, e Ainda Estou Aqui, orçado em R$ 45 milhões.
Dark Horse é estrelado pelo ator norte-americano Jim Caviezel, que interpreta Jair Bolsonaro. Conhecido por apoiar Donald Trump, Caviezel permaneceu cerca de três meses no Brasil durante as gravações. O elenco também conta com Esai Morales, ator que participou de Missão: Impossível – O Acerto Final.
O filme ainda não tem previsão de estreia no Brasil.
Durante a première realizada na semana passada em Las Vegas, o diretor Cyrus Nowrasteh afirmou esperar que o longa contribua para a campanha eleitoral de Flávio Bolsonaro. Segundo a reportagem, integrantes do entorno do senador defendem que a estreia ocorra apenas após as eleições para evitar impactos negativos sobre a candidatura.
A produção passou a ser utilizada por aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva como instrumento de crítica política. A reportagem também afirma que o caso ganhou novos desdobramentos após surgirem alegações de que o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), teria recebido um imóvel avaliado em R$ 2,45 milhões em Salvador como propina relacionada ao Banco Master.
Fonte: G1


