Divergências sobre apoio a Ciro Gomes e candidaturas ao Senado expõem crise no bolsonarismo, enquanto PT tenta fortalecer chapa de Elmano de Freitas.
A definição das alianças para a disputa pelo governo do Ceará transformou o estado em um dos principais focos da crise interna da família Bolsonaro a poucos meses das eleições. Enquanto o PL articula apoio ao ex-governador Ciro Gomes (PSDB) para enfrentar o governador Elmano de Freitas (PT), a estratégia divide lideranças do partido e expõe um embate entre o senador Flávio Bolsonaro e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.
A insatisfação de Michelle, manifestada anteriormente durante um evento em Fortaleza, ganhou novo capítulo com a divulgação de um vídeo em que ela criticou o enteado, o ex-ministro e reafirmou apoio à candidatura de Eduardo Girão (Novo) ao governo estadual e da ex-deputada Priscila Costa ao Senado.
No campo governista, o PT também enfrenta desafios internos. Atrás de Ciro Gomes nas pesquisas de intenção de voto, a legenda busca fortalecer a candidatura à reeleição de Elmano de Freitas pressionando o senador Cid Gomes (PSB) a disputar um novo mandato no Senado, em um cenário que também envolve o rompimento político entre ele e o irmão, Ciro Gomes.
Elmano tenta conquistar a sexta vitória consecutiva da esquerda no Ceará, mas aparece na faixa dos 30% das intenções de voto, atrás de Ciro, que se filiou ao PSDB em outubro e trabalha para consolidar uma frente de oposição ao governo estadual.
Apesar da aproximação com o PL, Ciro procura evitar que a disputa seja nacionalizada. O ex-governador descarta transformar sua campanha em palanque para Flávio Bolsonaro, especialmente em um estado onde o presidente Luiz Inácio Lula da Silva obteve 69,7% dos votos no segundo turno da eleição de 2022.
Segundo a estratégia da campanha, os principais temas serão saúde e segurança pública. Questionado sobre as declarações de Michelle Bolsonaro, Ciro afirmou que prefere não comentar o assunto.
— Não vi o vídeo e nem vou ver. É uma questão do PL nacional e envolve coisas muito mais complexas do que a nossa paróquia aqui. Eu sigo aqui tranquilo. O eixo do nosso entendimento aqui é um projeto de emancipação do Ceará que nós consideramos que está sendo muito mal tratado.
A composição da chapa ainda está em negociação. A expectativa é que o ex-deputado Capitão Wagner (União) dispute uma das vagas ao Senado ao lado de Ciro. A outra vaga é discutida com o PL, mas enfrenta resistência de Michelle Bolsonaro, que rejeita a aliança devido às críticas feitas por Ciro ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
A divergência provocou um racha dentro do bolsonarismo. Flávio Bolsonaro apoia a candidatura do deputado estadual Alcides Fernandes, pai do presidente estadual do PL, André Fernandes, ao Senado. Michelle, por sua vez, defende Priscila Costa, vice-presidente do PL Mulher e uma de suas principais aliadas.
Em vídeo divulgado na quarta-feira, Michelle afirmou que Priscila Costa teve papel importante na campanha de André Fernandes à Prefeitura de Fortaleza e criticou a decisão do partido de retirar espaço da ex-deputada para viabilizar a aliança com Ciro Gomes.
— O que aconteceu depois foi que, aproveitando-se da prisão do Jair (Bolsonaro), começaram a trabalhar para eliminar a Priscila da disputa, cedendo a vaga dela para garantir uma aliança com Ciro Gomes. Se o André queria agradar o Ciro Gomes, por que ele não ofereceu a vaga do seu próprio pai? Será que ele acha que retirar a vaga de uma mulher seria mais justo e fácil?
Antes da divulgação do vídeo, André Fernandes havia declarado que Michelle poderia “fazer o que ela quiser”, mas que isso não alteraria o posicionamento do partido em favor da aliança com Ciro.
O PL do Ceará espera reunir Flávio Bolsonaro e Michelle Bolsonaro em um evento previsto para o próximo mês, quando serão lançadas oficialmente as candidaturas ao Senado.
Do lado governista, Elmano de Freitas aposta no apoio do presidente Lula e do ex-governador Camilo Santana durante a campanha. Embora Camilo apareça à frente de Ciro em pesquisas, o PT descarta sua candidatura ao governo estadual e mantém o apoio à reeleição de Elmano.
O partido também tenta convencer Cid Gomes a disputar o Senado. Os irmãos Ciro e Cid romperam politicamente em 2022, após divergirem sobre a candidatura do PDT ao governo do Ceará. Cid defendia a então governadora Izolda Cela, enquanto Ciro apoiou o ex-prefeito de Fortaleza Roberto Cláudio.
Naquele pleito, o PT rompeu com o PDT, lançou Elmano de Freitas e venceu a eleição com 54,02% dos votos. Roberto Cláudio terminou a disputa com 14,14%.
Apesar da pressão, Cid resiste à candidatura ao Senado. O senador afirma ter compromisso com o deputado Junior Mano, apontado como nome do PSB para a disputa, e justifica a escolha pelo apoio de mais de 40 prefeitos ao aliado. A segunda vaga da chapa governista ao Senado deverá ser destinada a outro partido da base.
Fonte: OGLOBO


