Caso Master domina campanhas estaduais e amplia tensão com avanço das investigações

O avanço das investigações da Polícia Federal (PF) sobre o caso Master transformou o escândalo em um dos principais temas das disputas estaduais e passou a preocupar campanhas eleitorais diante da possibilidade de novas revelações. Em pelo menos seis estados — Bahia, Piauí, Distrito Federal, Rio de Janeiro, Alagoas e Paraná —, pré-candidatos e aliados utilizam o caso em discursos, propagandas, ações judiciais e publicações nas redes sociais para tentar associar adversários à fraude financeira e ao empresário Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master.

O impacto político ganhou força após as investigações alcançarem fundos de previdência estaduais e municipais. Dados do Ministério da Previdência apontam que 18 Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS) investiram R$ 1,867 bilhão em Letras Financeiras emitidas pelo Banco Master entre 2023 e 2024, títulos que não possuem cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Entre os maiores investimentos estão o Rioprevidência, com R$ 970 milhões, a Amprev, do Amapá, com R$ 400 milhões, e o Instituto de Previdência de Maceió, com R$ 117,9 milhões.

Em Alagoas, o caso passou a integrar a propaganda partidária. O Podemos exibiu inserções em rede nacional relacionando o ex-prefeito de Maceió e pré-candidato ao governo estadual, João Henrique Caldas (JHC), aos investimentos realizados pelo Instituto de Previdência dos Servidores de Maceió (Iprev) no Banco Master durante sua gestão. Apesar de os aportes terem ocorrido quando JHC era prefeito, ele não é alvo das investigações da PF.

A disputa também chegou à Justiça Eleitoral. O Tribunal Regional Eleitoral de Alagoas (TRE-AL) determinou a retirada de um vídeo publicado pelo deputado estadual Cabo Bebeto (PL), que associava JHC ao caso. O ex-prefeito evita comentar o assunto e tem recorrido à Justiça contra publicações que relacionam seu nome aos investimentos do instituto.

No Piauí, o senador Ciro Nogueira (PP) tornou-se alvo de críticas de adversários políticos após a PF afirmar que ele teria atuado em favor dos interesses de Daniel Vorcaro no Congresso em troca de vantagens indevidas, incluindo pagamentos mensais, uso de imóvel e custeio de viagens. Em mensagens obtidas pela investigação, o senador se refere ao banqueiro como “amigo de vida”.

O presidente estadual do PT, deputado Fábio Novo, afirmou que o mandato de Ciro teria sido utilizado para atender interesses do Banco Master, citando uma emenda que ampliaria a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos. Segundo a PF, a proposta teria sido elaborada dentro da instituição financeira. Ciro Nogueira nega as acusações, classifica a investigação como um “roteiro absurdo de ficção” e afirma que a proposta não buscava beneficiar o banco.

No Rio de Janeiro, o ex-prefeito Eduardo Paes (PSD), pré-candidato ao governo estadual, passou a utilizar a operação da PF envolvendo o ex-governador Cláudio Castro (PL) para atacar o grupo político adversário. A investigação apura supostas irregularidades em investimentos de aproximadamente R$ 3 bilhões do Rioprevidência no Banco Master, dos quais mais de R$ 1 bilhão foi aplicado após alerta do Tribunal de Contas do Estado.

Paes também tenta associar o presidente da Assembleia Legislativa, Douglas Ruas (PL), ao grupo político de Castro, embora o parlamentar não seja investigado. Ruas afirma ter encontrado pedidos de instalação de uma CPI sobre o caso parados na Assembleia e acusa aliados de Paes de tentar impedir o avanço das investigações.

Na Bahia, o caso também repercute entre os principais grupos políticos, embora um acordo informal de não agressão entre aliados do senador Jaques Wagner (PT) e do ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil) tenha reduzido os ataques diretos entre os dois. As críticas a Wagner partiram do pré-candidato ao Senado João Roma (PL), que citou as investigações envolvendo a relação do senador com o empresário Augusto Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro.

A PF apura se Jaques Wagner recebeu vantagens indevidas em troca de atuação em favor dos interesses de Vorcaro. Entre os elementos investigados estão um apartamento avaliado em R$ 2,45 milhões e repasses para uma empresa da nora do senador, que nega qualquer favorecimento ilícito.

Em resposta, o ex-deputado estadual Marcelino Galo (PT) cobrou explicações de ACM Neto sobre contratos de consultoria com o Banco Master. Documentos da Receita Federal apontam pagamentos de R$ 5,4 milhões à empresa do ex-prefeito entre 2023 e 2025. ACM Neto não é alvo da operação, nega irregularidades e afirma estar à disposição para prestar esclarecimentos.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participa de evento na Bahia nesta terça-feira e deverá dividir o palanque com aliados.

No Distrito Federal, a oposição passou a direcionar críticas à governadora Celina Leão (PP), pré-candidata à sucessão de Ibaneis Rocha (MDB), por causa da tentativa de compra do Banco Master pelo BRB. O deputado distrital Fábio Felix (PSOL) levou o tema ao debate eleitoral, embora Celina não seja investigada. Em suas propagandas, a governadora passou a defender a ideia de um “novo GDF”, buscando se desvincular da gestão de Ibaneis.

No Paraná, a oposição optou por acionar os órgãos de investigação. O deputado estadual Arilson Chiorato (PT) apresentou representação à Polícia Federal e à Procuradoria-Geral da República para apurar a atuação do deputado federal Filipe Barros (PL), alegando que ele teria atuado em favor dos interesses do Banco Master ao apresentar projeto que amplia o limite de cobertura do FGC. Barros nega qualquer relação com Daniel Vorcaro e afirma que apresentou a proposta antes do surgimento das investigações, com o objetivo de ampliar a proteção aos investidores.

Fonte: OGLOBO