Empresário sancionado pelos EUA é citado em investigações que ligam caso VaideBet, Corinthians, Buzeira e empresas citadas em apurações sobre o PCC

O empresário Victor Henrique de Oliveira Shimada, alvo de sanções impostas pelos Estados Unidos nesta quarta-feira (1º), aparece em investigações da Polícia Civil de São Paulo e do Ministério Público em um esquema que conecta o caso VaideBet, o Corinthians, empresas mencionadas em apurações sobre o Primeiro Comando da Capital (PCC) e transferências financeiras para o influenciador Buzeira.

As medidas representam a primeira rodada de sanções financeiras do governo do presidente Donald Trump contra brasileiros desde que os Estados Unidos classificaram o PCC e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas internacionais.

Segundo o governo norte-americano, Shimada liderava, a partir de São Paulo, uma estrutura de lavagem de dinheiro que atuava em conjunto com integrantes da facção radicados na Flórida. As autoridades dos EUA afirmam que o grupo movimentou mais de US$ 30 milhões em recursos de origem ilícita por meio de criptomoedas utilizadas para transferir valores provenientes do tráfico internacional de drogas.

No Brasil, Shimada é investigado por suspeita de participação em operações de lavagem de dinheiro relacionadas ao caso VaideBet, que apura desvios de recursos do contrato de patrocínio firmado entre o Corinthians e a casa de apostas.

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De acordo com as investigações, ele é o único sócio da Victory Trading Intermediação de Negócios, Cobrança e Tecnologia Ltda., empresa que também foi incluída na lista de sanções do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC), órgão vinculado ao Departamento do Tesouro dos Estados Unidos.

Em comunicado, o Tesouro norte-americano afirma que Shimada atuava como elo entre integrantes do PCC nos Estados Unidos e traficantes estrangeiros. Por esse motivo, foi sancionado com base em duas ordens executivas que autorizam o bloqueio de bens e a proibição de transações com pessoas e empresas ligadas ao crime organizado transnacional.

Segundo relatório da Polícia Civil de São Paulo, Victor Shimada aparece em uma cadeia financeira que conecta a Victory Trading à Wave Intermediações e à UJ Football Talent.

A UJ Football Talent foi citada na delação premiada de Antonio Vinicius Lopes Gritzbach como uma empresa supostamente relacionada a Danilo Lima de Oliveira, conhecido como “Tripa”, apontado pelo delator como integrante do PCC. O relatório também destaca que o próprio Gritzbach apareceu em análises financeiras envolvendo a Wave, empresa que mantinha intensa movimentação financeira com a Victory Trading.

Apesar dessas conexões, a investigação não afirma que Victor Shimada seja integrante do PCC. Os investigadores sustentam apenas que ele aparece em um fluxo financeiro que cruza com pessoas e empresas citadas em apurações relacionadas à facção criminosa.

Além desse caso, o empresário responde a quatro processos sem relação direta com organização criminosa, envolvendo ameaça, violência doméstica e familiar, injúria e lesão corporal dolosa.

O promotor Lincoln Gakiya, referência nacional no combate ao PCC, afirmou que não há investigações do Ministério Público de São Paulo apontando que Victor Shimada ou Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira sejam integrantes da facção.

“Aqui no Ministério Público de São Paulo não há nenhuma informação de que o Victor, ou mesmo de que a Stella, ou as empresas ligadas a eles, sejam ou estejam relacionados de alguma forma com o PCC. Nenhuma investigação do Ministério Público aqui aponta para isso”, declarou Gakiya.

“Nós não temos informação de que ele faça a lavagem para o PCC. A não ser que o FBI e o Departamento de Estado norte-americano tenham conseguido essas provas lá”, acrescentou.

O papel da Victory Trading no caso VaideBet

Segundo a Polícia Civil, a Victory Trading ocupava posição estratégica na movimentação dos recursos investigados no caso VaideBet.

Os investigadores afirmam que a empresa funcionava como uma “conta de passagem”, recebendo recursos de empresas envolvidas no fluxo financeiro investigado e redistribuindo posteriormente os valores para dificultar o rastreamento da origem do dinheiro.

A polícia sustenta que a empresa misturava recursos de origem aparentemente lícita com valores de origem ilícita para conferir aparência de legalidade às operações antes que o dinheiro chegasse aos destinatários finais.

Embora possuísse atividade empresarial regular e capital social declarado de R$ 30 milhões, a Victory Trading é descrita nos relatórios como uma empresa que mantinha uma “sociedade fictícia em seu braço direito”, expressão utilizada pelos investigadores para indicar uma estrutura destinada a ocultar os verdadeiros responsáveis pelas operações.

Os relatórios também apontam movimentações milionárias que poderiam ter sido destinadas à compra de criptomoedas, mecanismo que, segundo a investigação, dificultaria o rastreamento dos recursos.

A ligação com a Wave Intermediações

Outro ponto central da investigação envolve a Wave Intermediações e Tecnologias Ltda., apontada como uma das destinatárias dos recursos desviados do contrato entre o Corinthians e a VaideBet.

Segundo a Polícia Civil, Victor Shimada teria atuado nos bastidores da empresa e convencido Inauê Santiago Carneiro a figurar formalmente como sócio da Wave, embora a suspeita seja de que ele atuasse apenas como “laranja”, emprestando seu nome para ocultar quem efetivamente controlava a empresa.

Como um dos indícios dessa relação, a polícia afirma que Shimada e Inauê fizeram fotografias para abertura de contas bancárias no mesmo local, elemento que, segundo os investigadores, reforça a hipótese de influência de Shimada sobre a operação da empresa.

As conexões com empresas citadas em investigações sobre o PCC

As investigações identificaram ainda movimentações financeiras entre a Victory Trading e a UJ Football Talent.

Segundo os relatórios, a Victory transferiu R$ 200 mil para a UJ Football Talent em 28 de março de 2024, poucos dias após receber milhões de reais da Wave.

A UJ Football Talent foi citada na delação de Antonio Vinicius Lopes Gritzbach, morto no Aeroporto Internacional de São Paulo em 2024, como uma empresa supostamente utilizada para lavagem de dinheiro do PCC.

Segundo o delator, a empresa seria ligada ao agente de jogadores Danilo Lima de Oliveira, conhecido como “Tripa”, apontado nas investigações como integrante da facção.

Os investigadores afirmam que esse conjunto de movimentações integra uma rede financeira que conecta empresas e pessoas mencionadas em apurações sobre o PCC. No entanto, os relatórios não afirmam que Victor Shimada integre a organização criminosa.

As transferências para Buzeira

As investigações também identificaram transferências realizadas pela Victory Trading para a Buzeira Digital, empresa do influenciador Bruno Alexssander Souza Silva, conhecido como Buzeira.

Com mais de 15 milhões de seguidores no Instagram, Buzeira ficou conhecido por promover rifas, sorteios de carros, artigos de luxo e outras ações promocionais, além de exibir carros de luxo, joias, relógios e helicópteros nas redes sociais.

Segundo os relatórios da Polícia Civil, em 1º de abril de 2024 a Victory Trading transferiu R$ 1 milhão para a Buzeira Digital em duas operações, uma de R$ 490 mil e outra de R$ 510 mil. Em 22 de abril, a empresa realizou um novo repasse de R$ 300 mil, totalizando R$ 1,3 milhão em menos de um mês.

Para os investigadores, essas operações chamam atenção porque ocorreram apenas três dias após a transferência de R$ 200 mil da Victory para a UJ Football Talent e logo depois de a empresa receber repasses milionários da Wave Intermediações.

Os relatórios de inteligência financeira também apontam que Victor Shimada e Buzeira aparecem ligados ao mesmo fluxo financeiro investigado. Segundo a Polícia Civil, existe um “entrelaçamento atípico” entre as movimentações das empresas dos dois, reforçando a hipótese de que a Victory Trading funcionava como uma “conta de passagem” para pulverizar recursos e dificultar o rastreamento da origem do dinheiro.

A investigação afirma ainda que tanto as empresas controladas por Shimada quanto Buzeira mantêm uma “aparente relação com o crime organizado”. No caso do influenciador, a Polícia Civil apura suspeitas de ligação com um traficante do PCC conhecido como “Neymar do PCC”.

Buzeira está preso desde outubro de 2025, quando foi alvo da Operação Narco Bet, da Polícia Federal, desdobramento da Operação Narco Vela, que investiga um esquema de tráfico internacional de drogas e lavagem de dinheiro.

Sanções dos Estados Unidos

O governo Trump anunciou sanções contra Victor Henrique de Oliveira Shimada, Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira, as empresas Victory Trading Intermediação de Negócios, Cobrança e Tecnologia Ltda., Pixwave Soluções de Pagamentos Ltda., Wave Construções Inteligentes Ltda. e a empresa portuguesa Avenidas Flutuantes Unipessoal Lda.

Segundo o Departamento do Tesouro dos EUA, Victor, Stella e as empresas fariam parte de uma rede internacional de lavagem de dinheiro ligada ao PCC, investigada na Flórida. Outros seis suspeitos de integrar essa estrutura foram presos em janeiro deste ano nos Estados Unidos.

No comunicado, o governo americano voltou a classificar o PCC como “a maior organização criminosa transnacional do Hemisfério Ocidental” e afirmou que a facção representa uma “ameaça significativa à segurança nacional dos EUA”, além de acusá-la de utilizar o sistema financeiro norte-americano para lavar dinheiro.

Em junho, o Departamento de Estado dos Estados Unidos classificou o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas, contrariando pedidos do governo brasileiro. Segundo o entendimento do governo norte-americano, a medida amplia a possibilidade de adoção de sanções contra cidadãos e empresas brasileiras e, em último caso, de ações unilaterais dos EUA.

Fonte: G1