O nome de DJ Japa NK ganhou projeção internacional após aparecer em um story do atacante espanhol Lamine Yamal, que publicou um vídeo ouvindo uma música produzida pelo artista paulista. O destaque veio justamente às vésperas do confronto da Espanha contra a Bélgica, pela Copa do Mundo, nesta sexta-feira (10).
Aos 33 anos, Adenilton Sapucaia dos Santos, conhecido artisticamente como DJ Japa NK, é o responsável por um dos maiores sucessos recentes do funk brasileiro: “Posso Até Não te Dar Flores”. A faixa liderou o ranking das músicas mais ouvidas do Spotify Brasil por 16 semanas e ultrapassou 250 milhões de reproduções na plataforma.
O sucesso, porém, veio após uma trajetória distante dos holofotes. Antes de se tornar um dos produtores mais ouvidos do país, Japa trabalhou por mais de uma década como ajudante de pedreiro ao lado do pai e só lançou sua primeira música oficialmente em 2022.
A grande virada aconteceu em 2025, quando “Posso Até Não te Dar Flores” explodiu nacionalmente. O produtor, integrante da gravadora Bololô Records, de MC Ryan SP, passou a emplacar outros hits e consolidou seu espaço na cena do funk.

Entre seus trabalhos estão “Amo Minha Favela”, com MC Meno K, “Gauchinha”, “Carnívoro” e “SET DO JAPA NK 2.0”, com MC Oruam.
Da construção civil ao topo das paradas musicais
Antes da fama, a rotina de Japa NK era marcada pelo trabalho pesado. Nascido em Taboão da Serra, na Grande São Paulo, ele se mudou ainda criança para Amargosa, no interior da Bahia, onde viveu até os 18 anos.
O produtor relembra a cidade como um lugar tranquilo, longe da violência dos grandes centros.
“Era ‘mó’ paz. Eu gostava de lá porque não tem violência e essas coisas de cidade grande”, contou ao g1.
Amargosa possui população estimada em cerca de 39 mil habitantes, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e fica a 241 quilômetros de Salvador.
Ao retornar para São Paulo, Japa passou a morar no Capão Redondo, na Zona Sul da capital, e começou a trabalhar como auxiliar de pedreiro junto com o pai. A mãe era faxineira e a irmã trabalhava como caixa de mercado.
“Eu não queria vir para São Paulo porque estava acostumado com o ritmo de Amargosa, mas meus pais me convenceram dizendo que tinha mais oportunidade de emprego aqui”, afirmou.
Segundo ele, naquele período não imaginava que a música poderia transformar sua vida.
“Nunca achei que a música podia mudar minha vida. Eu achava que música não dava dinheiro. Foi nesse momento que comecei a trabalhar em obra, carregando entulhos e batendo massa, por um salário pequeno”, disse.
Primeiros passos na música
O contato com a produção musical começou como hobby, utilizando o programa Virtual DJ para fazer mixagens.
“A maioria dos DJs, quando começam a fazer música, iniciam assim”, explicou.
A primeira apresentação pública aconteceu em 2008, no colégio Pedro Calmon, em Amargosa. Ele conta que colegas pediram para que tocasse no auditório da escola e que a experiência despertou sua paixão pela música.
Antes de voltar para São Paulo, realizou pelo menos cinco apresentações no interior da Bahia.
Após mais de dez anos trabalhando na construção civil, lançou sua primeira música oficial aos 30 anos, em 2022. A transformação definitiva veio três anos depois, com o sucesso de “Posso Até Não te Dar Flores”.
Entre suas principais referências estão Martin Garrix, que apresentou um remix da faixa em um show no Brasil, e David Guetta. O produtor também sonha em trabalhar com nomes como MC Hariel, MC Don Juan, Dennis DJ e Pedro Sampaio.
Origem do nome Japa NK
O apelido “Japa” surgiu ainda em Amargosa por causa dos olhos puxados, característica relacionada à sua ascendência japonesa.
Quando voltou a São Paulo, o apelido continuou sendo usado pelos amigos, mas havia outras pessoas com origem japonesa no mesmo grupo.
Para se diferenciar, Adenilton acrescentou “NK”, uma referência ao Jardim Nakamura, comunidade próxima ao Capão Redondo.
Atualmente, Japa NK está entre os poucos descendentes de asiáticos em destaque na música brasileira.
Segundo o Censo Demográfico de 2022, 0,4% dos brasileiros se identificam como amarelos. A cidade de São Paulo concentra a maior população declarada amarela do país, com 238.603 habitantes, equivalente a 2,1% da população municipal.
O produtor também carrega referências da própria identidade em tatuagens no braço direito, incluindo três caracteres japoneses — “平 家 信” — associados aos significados de paz, família e fé, além de um templo budista japonês.
O fenômeno de “Posso Até Não te Dar Flores”
A música que projetou Japa NK nasceu durante uma viagem ao Guarujá, no litoral sul de São Paulo. Produzida ao lado do DJ Davi DogDog, a faixa mistura arrocha e funk.
Os produtores buscaram inspiração em músicas como “I Gotta Feeling”, do Black Eyed Peas, e “Famosinha”, de MC Ryan, que também possui influência do arrocha.
“Usei o beat de arrocha para puxar a produção e precisei de um ritmado para dar aquela explosão na música”, explicou Japa.
A canção foi construída com dois momentos diferentes de batida: um mais calmo e outro mais intenso. Segundo o produtor, essa variação ajuda a criar uma sensação de dinamismo e faz o público querer ouvir novamente.
A música foi enviada para MC Jacaré, MC Ryan SP e MC Meno K gravarem os versos. Após finalizar a produção, Japa percebeu o potencial do trabalho.
“Quando terminamos de montar já era 6h da manhã. Pensei: ‘acabei de acertar um hit, vou fazer mais nada hoje’”, contou.
O sucesso foi suficiente para tirar “Posso Até Não te Dar Flores” da liderança de “P do Pecado”, de Menos é Mais com Simone Mendes, que ocupava o topo do ranking.
Para Japa, o crescimento do funk no Brasil está relacionado à capacidade do gênero de transmitir sentimentos.
“Acredito que o funk tem potencial de andar lado a lado com o sertanejo como o ritmo mais ouvido no Brasil. O sertanejo é sobre sentimento e passa aquilo que as pessoas querem ouvir. O funk, hoje, está fazendo a mesma coisa”, afirmou.
Produção marcada por sentimentos e superação
Os temas mais frequentes nas músicas de DJ Japa NK envolvem términos, sofrimento amoroso e superação por meio das festas.
Ao explicar a escolha desses assuntos, ele brincou:
“Quem nunca sofreu por uma mulher atire a primeira pedra”.
Segundo o produtor, a identificação do público é um dos principais fatores para o sucesso das músicas.
“Quando eu vou fazer a música, eu sempre busco pensar no público que vai ouvir. Música é sentimento. Você vai escutar e vai se identificar, porque pode estar passando por algo parecido”, disse.
Nos beats, Japa busca referências no funk de anos anteriores, especialmente na fase de artistas como MC Don Juan, MC Hariel e MC Kevin.
“Eu sinto que o público sente falta dessa estética no funk”, explicou.
Durante uma sessão acompanhada pelo g1, o produtor mostrou a rotina de criação. Inicialmente descontraído, mudou completamente a postura quando MC Ryan SP entrou para gravar, assumindo o papel de produtor e orientando os detalhes da música.
MC Ryan SP define Japa como um irmão.
“Ele é muito trabalhador, inovador e gosta muito de fazer música. Japa veio para ficar e proliferar”, afirmou o cantor.
Com uma trajetória que saiu da construção civil para o topo das plataformas digitais, DJ Japa NK se tornou um dos nomes mais comentados do funk brasileiro e agora começa a alcançar reconhecimento também fora do país.
Fonte: G1



