A agência reguladora de medicamentos dos Estados Unidos (FDA) aprovou nesta quinta-feira (16) o Lipfendra (enlicitide), primeiro medicamento em comprimido da classe dos inibidores de PCSK9. Até então, esse tipo de tratamento estava disponível apenas na forma de injeções. Os estudos clínicos apontam que o novo remédio é capaz de reduzir em até 60% os níveis de colesterol LDL, conhecido como “colesterol ruim”.
A eficácia é semelhante à dos inibidores de PCSK9 injetáveis, considerados entre os tratamentos mais potentes para diminuir o colesterol e reduzir o risco de doenças cardiovasculares. A expectativa é que a versão oral amplie o acesso à terapia, já que os medicamentos injetáveis ainda enfrentam limitações relacionadas ao custo, à necessidade de aplicações periódicas e à menor adesão dos pacientes.
A aprovação do FDA foi baseada em dois estudos clínicos de fase 3, que demonstraram redução significativa do colesterol LDL em diferentes perfis de pacientes, incluindo pessoas com hipercolesterolemia familiar — doença genética que provoca níveis muito elevados de colesterol desde cedo — e pacientes que já utilizavam estatinas.
As estatinas permanecem como o tratamento de primeira linha para reduzir o colesterol e prevenir infarto e acidente vascular cerebral (AVC). Esses medicamentos atuam diminuindo a produção de colesterol pelo fígado e conseguem controlar a condição na maioria dos pacientes.

Entretanto, em pessoas com risco cardiovascular elevado, histórico de infarto, doença arterial ou alterações genéticas, a redução proporcionada pelas estatinas pode não ser suficiente. Nesses casos, entram em cena os inibidores de PCSK9.
Enquanto as estatinas bloqueiam uma enzima envolvida na produção de colesterol pelo fígado, o Lipfendra atua de forma diferente. O medicamento inibe a proteína PCSK9, responsável por regular a quantidade de receptores que removem o colesterol LDL da circulação. Ao bloquear essa proteína, os receptores permanecem ativos por mais tempo, retirando uma quantidade maior de colesterol do sangue.
Segundo o cardiologista Elzo Mattar, diretor do Departamento de Hipertensão Arterial da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e professor da Faculdade Estadual de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp), esse mecanismo permite um controle mais intenso do colesterol.
De acordo com as diretrizes mais recentes da American Heart Association e do American College of Cardiology, pessoas com risco cardiovascular elevado devem manter o LDL abaixo de 70 mg/dL. Para pacientes que já sofreram infarto ou apresentam risco muito elevado, a recomendação é atingir níveis inferiores a 55 mg/dL.
Mattar destaca que as diretrizes brasileiras, europeias e americanas vêm reforçando uma estratégia de controle cada vez mais rigoroso do colesterol.
“Quanto mais baixo o LDL, melhor. E quanto mais cedo a gente conseguir reduzir esse colesterol, menor será a chance de o paciente desenvolver doença aterosclerótica ao longo da vida”, afirma.
O mecanismo de ação do Lipfendra já era conhecido na medicina. A principal inovação está na forma de administração. Atualmente, os medicamentos dessa classe são comercializados apenas como injetáveis, como o Repatha, da Amgen, e o Praluent, desenvolvido pela Regeneron e Sanofi.
Outra alternativa disponível é a inclisirana, aplicada a cada seis meses, que reduz a produção da proteína PCSK9 por um mecanismo diferente e costuma ser indicada para pacientes com dificuldade de manter o uso diário de medicamentos.
Esses tratamentos já demonstraram reduzir cerca de 20% do risco de infarto, AVC e morte por doenças cardiovasculares em pacientes de alto risco quando utilizados em conjunto com estatinas.
Nos estudos apresentados pela Merck, fabricante do Lipfendra, o comprimido alcançou reduções do colesterol LDL semelhantes às observadas com os medicamentos injetáveis, sem aumento relevante de efeitos adversos em comparação com o placebo.
A empresa também conduz um estudo para verificar se a versão oral será capaz de reduzir infartos, acidentes vasculares cerebrais e mortes cardiovasculares na mesma proporção registrada pelos inibidores de PCSK9 injetáveis.
Outro diferencial do novo medicamento é o preço. Nos Estados Unidos, o Lipfendra terá valor de tabela de US$ 315 para um tratamento de 30 dias e deverá chegar às farmácias nas próximas semanas.
Os inibidores de PCSK9 injetáveis atualmente disponíveis custam entre US$ 500 e US$ 600 por mês, podendo ter preços ainda maiores conforme a cobertura dos planos de saúde.
Segundo a American Heart Association, aproximadamente um em cada quatro adultos norte-americanos apresenta níveis elevados de colesterol LDL.
A aprovação do Lipfendra ocorre em um cenário de rápida evolução das terapias para controle do colesterol. Pesquisadores continuam desenvolvendo novos tratamentos com o objetivo de simplificar o uso dos medicamentos e aumentar a adesão dos pacientes.
Embora ainda seja necessário confirmar se o comprimido terá o mesmo impacto dos injetáveis na redução de infartos e AVCs, os resultados obtidos até agora indicam que ele pode oferecer eficácia semelhante com a praticidade de um comprimido diário.
Fonte: G1



