Assassinatos atingem menor nível em 14 anos, mas 8 em cada 10 vítimas ainda são negras

O Brasil registrou, em 2025, a menor taxa de assassinatos desde o início da série histórica do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, em 2012. Apesar da redução da violência letal, o levantamento divulgado nesta quinta-feira aponta que a desigualdade racial permanece evidente: cerca de oito em cada dez vítimas de mortes violentas intencionais são pessoas negras.

De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, foram registradas 40.775 mortes violentas intencionais no país ao longo de 2025. A taxa ficou em 19,1 casos por 100 mil habitantes, representando uma queda de 8% em relação a 2024 e de 31% na comparação com 2012, primeiro ano da série histórica.

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) considera como Mortes Violentas Intencionais (MVI) os casos de homicídio doloso, latrocínio, lesão corporal seguida de morte e mortes decorrentes de intervenções policiais, tanto em serviço quanto fora dele.

Quando são analisados apenas os homicídios dolosos, aqueles praticados com intenção de matar, a redução foi de 10%, com taxa de 15,4 casos por 100 mil habitantes. O resultado permitiu que o Brasil alcançasse, com dois anos de antecedência, a meta estabelecida pelo Governo Federal em 2021, durante a revisão das normas de implementação do Sistema Único de Segurança Pública, que previa reduzir esse índice para 16 homicídios por 100 mil habitantes até 2027.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Apesar do avanço, especialistas defendem cautela na interpretação dos números. A pesquisadora do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e doutora em Ciências Sociais, Raquel Souza, afirma que a antecipação da meta não elimina desafios estruturais da segurança pública.

Segundo ela, o país ainda precisa aperfeiçoar os mecanismos de controle do uso da força, já que os dados indicam que o próprio Estado, em diferentes esferas e poderes, também integra o problema da violência, e não apenas as soluções.

Na direção contrária da queda geral das mortes violentas, o levantamento mostra aumento de 5,4% nas mortes decorrentes de intervenção policial em 2025. Foram registrados 6.602 casos ao longo do ano, o equivalente a uma em cada seis mortes violentas intencionais contabilizadas no país.

A desigualdade racial também aparece de forma marcante nesses registros. Entre as vítimas de intervenções policiais, 82% são pessoas negras, enquanto aproximadamente 18% são brancas.

Considerando todas as mortes violentas intencionais, o anuário aponta que 79,7% das vítimas são negras. O estudo também conclui que uma pessoa negra tem 3,5 vezes mais probabilidade de ser assassinada do que uma pessoa branca.

Na análise regional, o Nordeste continua concentrando a maior taxa de mortes violentas intencionais do país, com 31,6 casos por 100 mil habitantes. Em seguida aparece a região Norte, com taxa de 25,3. Embora permaneçam acima da média nacional, ambas registraram redução em comparação com 2024.

Raquel Souza atribui esse cenário, em grande parte, ao fortalecimento de organizações criminosas nessas regiões. Segundo a pesquisadora, a ampliação do controle de territórios, economias e infraestruturas estratégicas por esses grupos intensifica as disputas e contribui para o aumento da violência letal.

As menores taxas foram registradas nas regiões Sudeste e Sul, que apresentaram índices de 12,6 e 11,9 mortes violentas intencionais por 100 mil habitantes, respectivamente.

Fonte: OGLOBO