Camila Queiroz revela congelamento do cordão umbilical da filha; entenda quando a ‘poupança biológica’ realmente pode ser útil

A atriz Camila Queiroz revelou no início deste mês que decidiu armazenar as células do cordão umbilical da filha Clara, nascida em dezembro. O procedimento, conhecido como “poupança biológica”, voltou a despertar interesse por prometer preservar células-tronco capazes de auxiliar no tratamento de doenças graves. No entanto, especialistas destacam que o uso efetivo desse material ainda é raro e que a principal recomendação médica continua sendo a doação para bancos públicos.

A coleta é realizada poucos minutos após o nascimento do bebê. Depois que o cordão umbilical é pinçado e separado da criança, uma equipe especializada retira cerca de 80 mililitros de sangue de uma veia do cordão e também um segmento de aproximadamente dez centímetros do próprio tecido, que normalmente seriam descartados.

O material é transportado em um contêiner com temperatura controlada e monitoramento constante, sem passar por equipamentos de raio-X, já que a radiação pode comprometer as células. O laboratório deve receber a amostra em até 48 horas.

No laboratório, o sangue passa por um processo de lavagem, contagem celular e recebe uma solução anticongelante para evitar a formação de cristais de gelo. Em seguida, é resfriado gradualmente até atingir 120°C negativos e, posteriormente, armazenado em tanques de nitrogênio líquido a 196°C negativos. Cada tanque pode conservar cerca de quatro mil amostras em ambiente protegido contra contaminações.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Segundo apuração do g1, o armazenamento em bancos privados custa, em média, cerca de R$ 4 mil pela coleta e aproximadamente R$ 1 mil por ano para manutenção.

As famílias podem optar entre dois modelos. Nos bancos públicos, a doação é gratuita e as células passam a integrar um acervo disponível para qualquer paciente compatível. Nos bancos privados, o material fica reservado exclusivamente para uso da própria família mediante pagamento.

O hematologista Nelson Tatsui, integrante da equipe de hemoterapia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC-FMUSP) e diretor clínico da Criogênesis, acompanhou o processo de armazenamento de uma dessas amostras ao lado da equipe do g1.

As células-tronco presentes no sangue do cordão umbilical são responsáveis pela formação dos glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas. Segundo a ginecologista e especialista em reprodução humana Fernanda Guttilla, do Hospital Sírio-Libanês, elas apresentam maior capacidade de multiplicação do que as células da medula óssea de adultos e oferecem maior tolerância imunológica, reduzindo o risco de rejeição em transplantes.

Além do sangue, o tecido do cordão contém células mesenquimais, associadas à regeneração de estruturas como ossos, cartilagens e fígado, embora essas aplicações ainda estejam em fase de pesquisa.

Na prática clínica, porém, o uso comprovado do sangue do cordão umbilical é restrito aos transplantes de medula óssea para tratar doenças do sangue e do sistema imunológico, como leucemias, linfomas, síndromes mielodisplásicas, aplasia de medula, anemia falciforme, talassemia, imunodeficiências e alguns distúrbios metabólicos raros.

Em pacientes com câncer hematológico, as células substituem a medula após a eliminação das células tumorais. Nos casos de aplasia, assumem a função da medula que deixou de produzir células sanguíneas. Em doenças hereditárias, como anemia falciforme e talassemia, o objetivo é restaurar a produção normal de hemoglobina. Já em imunodeficiências e algumas doenças metabólicas, permitem a reconstrução do sistema imunológico ou a produção de enzimas ausentes.

Após serem infundidas por via intravenosa, as células migram naturalmente para o interior dos ossos, onde começam a reconstruir a medula. Os primeiros sinais de recuperação costumam surgir entre dez e quinze dias, enquanto a recuperação completa da imunidade pode levar meses.

Apesar da expectativa criada em torno da chamada “poupança biológica”, especialistas afirmam que o uso das próprias células armazenadas apresenta limitações importantes.

Fernanda Guttilla explica que utilizar células do próprio paciente praticamente elimina o risco da doença do enxerto contra o hospedeiro, complicação em que as células transplantadas atacam o organismo do receptor. No entanto, nas leucemias, justamente essa reação ajuda a eliminar células cancerígenas remanescentes, tornando o transplante com células do próprio cordão menos vantajoso. Além disso, existe a possibilidade de essas células já carregarem alterações relacionadas ao desenvolvimento do câncer.

Nas doenças genéticas, como a anemia falciforme, o problema é ainda mais evidente, já que as células armazenadas possuem o mesmo defeito genético e não corrigem a doença. Tatsui ressalta que pesquisas envolvendo edição genética, com tecnologias como o CRISPR, podem abrir novas possibilidades no futuro, mas os tratamentos atualmente aprovados utilizam células retiradas do paciente no momento da terapia, e não o cordão congelado ao nascimento.

Outro desafio é a quantidade limitada de células disponíveis em uma única coleta, que muitas vezes não atende às necessidades de adolescentes e adultos, exigindo, em alguns casos, o uso combinado de duas unidades ou a expansão celular em laboratório.

A médica Marta Lemos, coordenadora do serviço de hemoterapia e terapia celular do A.C.Camargo Cancer Center, afirma que a probabilidade de utilização do material armazenado para uso próprio é muito baixa.

“A chance de utilização é muito pequena, e, para uso próprio, esse investimento não se justifica”, afirma.

Ela acrescenta que o armazenamento não elimina os riscos de o material nunca ser utilizado ou de não possuir quantidade suficiente de células quando necessário. Por isso, considera mais vantajosa a doação para bancos públicos, onde as amostras podem beneficiar qualquer paciente compatível atendido pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Os números reforçam essa avaliação. O 15º relatório da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), divulgado neste ano com dados de 2024, mostra que os bancos privados brasileiros armazenaram 164.789 unidades de sangue de cordão desde 2003. Nesse período, apenas 26 amostras foram utilizadas, sendo nove pelo próprio doador e 17 por familiares.

Somente em 2024, houve um transplante realizado com material armazenado em banco privado, utilizado entre irmãos para tratar um caso de aplasia de medula. No mesmo ano, 1.428 famílias encerraram os contratos de armazenamento e, desde 2015, já foram registradas 9.173 rescisões.

Além disso, 17,3% das unidades coletadas pela rede privada em 2024 foram descartadas por não atingirem o volume ou a concentração mínima de células exigidos.

Quanto ao tempo de conservação, ainda não existe um prazo máximo estabelecido pela literatura científica. Estudos mostram que células armazenadas por até quase 30 anos continuam viáveis para transplantes. Segundo Tatsui, ocorre uma pequena redução da viabilidade no primeiro ano de congelamento, mas depois a estabilidade tende a permanecer por décadas. Na prática, o principal limitador não é o tempo, mas a quantidade de células disponível para atender às necessidades do paciente.

Enquanto os bancos privados seguem oferecendo o serviço, a situação da rede pública mudou significativamente. A doação depende de maternidades credenciadas à BrasilCord, coordenada pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca), mas a rede suspendeu em 2020 as coletas destinadas a doações não aparentadas durante a pandemia de Covid-19 e não retomou essa atividade.

Dados da Anvisa mostram que, em 2024, nenhum dos 15 bancos públicos realizou coleta para ampliar o estoque de unidades destinadas a pacientes sem vínculo familiar.

Em janeiro de 2025, o Inca informou oficialmente à Anvisa que, em conjunto com a Coordenação-Geral do Sistema Nacional de Transplantes, decidiu não expandir os bancos públicos nem aumentar o acervo existente, justificando a medida pela redução do uso desse tipo de transplante e pelos altos custos de manutenção.

Posteriormente, em setembro de 2025, uma portaria do Ministério da Saúde atualizou o regulamento técnico dos transplantes e retirou as referências à BrasilCord.

O Ministério da Saúde afirma, entretanto, que os bancos públicos continuam funcionando e que as unidades já armazenadas permanecem disponíveis para transplantes quando houver indicação médica.

Segundo a pasta, a ampliação do Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea (Redome) aumentou a oferta de doadores adultos e reduziu a necessidade de utilizar sangue de cordão umbilical. Em nota, o ministério informou que, dos 369 transplantes não aparentados realizados em 2023, apenas quatro utilizaram unidades da rede pública de cordão.

A pasta também afirma que as coletas para ampliar o estoque continuam suspensas, embora permaneçam autorizadas aquelas destinadas ao uso entre familiares quando houver indicação médica. O governo sustenta ainda que a retirada do nome BrasilCord da regulamentação teve caráter técnico e não representa o encerramento da rede nem altera o acesso dos pacientes aos transplantes.

Na prática, porém, especialistas destacam que uma gestante que deseje doar hoje o cordão umbilical do filho para uso público dificilmente encontrará uma maternidade realizando esse tipo de coleta.

Pesquisadores apontam que terapias gênicas em desenvolvimento podem ampliar a utilidade das células armazenadas no futuro. Técnicas como a edição genética com CRISPR já são utilizadas em alguns países para tratar doenças como anemia falciforme e beta-talassemia utilizando células do próprio paciente. A expectativa é que, futuramente, as células do cordão, por serem mais jovens e biologicamente mais vigorosas, possam servir como matéria-prima para esses tratamentos.

Até que esses avanços se consolidem, especialistas consideram que o armazenamento privado representa uma aposta de longo prazo, com benefício mais evidente apenas para famílias que já possuem outro filho com doença tratável por transplante de células-tronco.

Fonte: G1