O Tribunal do Júri absolveu os policiais militares Renato Torquatto da Cruz e Robson Noguchi de Lima, acusados de matar Igor Oliveira de Moraes Santos durante uma operação policial realizada em 10 de julho de 2025, em Paraisópolis, na Zona Sul de São Paulo.
Os soldados Hugo Leal de Oliveira Reis e Victor Henrique de Jesus também respondem ao processo, apontados pelo Ministério Público como colaboradores dos executores. O caso deles foi desmembrado e ainda não há data definida para julgamento.
O júri dos dois cabos teve início na terça-feira (28), no Plenário 13 do Fórum Criminal da Barra Funda, na Zona Oeste da capital paulista. A decisão foi tomada por um Conselho de Sentença formado por sete jurados, sendo cinco homens e duas mulheres.
Na sentença, o Tribunal registrou que os jurados reconheceram tanto a materialidade quanto a autoria do crime atribuídas aos réus, mas responderam de forma afirmativa ao quesito absolutório, resultando na absolvição de ambos.

“Realizado o julgamento, o Conselho de Sentença reconheceu a materialidade e a autoria delitiva quanto a ambos os réus e, em seguida, respondeu afirmativamente ao quesito absolutório, do que resultou a absolvição de ambos”, diz a decisão.
Com a absolvição, foi expedido o alvará de soltura dos policiais, que será encaminhado para cumprimento no Presídio Militar Romão Gomes.
A defesa da família de Igor informou que já apresentou recurso contra a decisão. Em nota, os advogados Gabriela Amoras, Jonatha Carvalho Matos e Wilson Zaska afirmaram que a sentença é “manifestamente contrária às provas produzidas nos autos” e defenderam a realização de um novo julgamento pelo Tribunal do Júri.
O caso ganhou repercussão após imagens registradas pelas câmeras corporais dos policiais mostrarem a abordagem que terminou com a morte do jovem de 24 anos.
Na época da ocorrência, policiais das Rondas Ostensivas com Apoio de Motocicletas (Rocam), do 16º Batalhão da Polícia Militar, afirmaram que realizavam patrulhamento no cruzamento das ruas Rudolf Lotze e Pasquale Gualupi para combater o tráfico de drogas na comunidade de Paraisópolis.
Em 22 de julho, o Ministério Público denunciou os quatro policiais envolvidos na operação. A denúncia foi aceita pela juíza Luciana Menezes Scorza, da 4ª Vara do Júri, e, uma semana depois, em 29 de julho do ano passado, eles passaram à condição de réus.
Gravações obtidas pela TV Globo revelaram outro ângulo da ação e detalharam os momentos que antecederam a morte de Igor.
Nas imagens, o jovem aparece inicialmente rendido, com as mãos sobre a cabeça. Em seguida, deita-se no chão após receber ordens dos policiais. Pouco depois, começa a se levantar com uma das mãos erguidas, obedecendo às determinações dos agentes.
Nesse momento, o cabo Renato Torquatto da Cruz efetua o primeiro disparo. Logo depois, o cabo Robson Noguchi de Lima também atira contra Igor.
As gravações mostram ainda que, assim que os policiais entram no quarto onde estavam quatro suspeitos, todos se rendem. Durante a abordagem, os agentes repetem diversas vezes a expressão: “Perdeu, perdeu, perdeu.”
Na sequência, Renato Torquatto da Cruz, ainda do lado de fora do cômodo, pergunta se havia alguém armado e dispara duas vezes contra as paredes do imóvel. Após esses tiros, os quatro suspeitos permanecem deitados no chão enquanto os policiais continuam questionando sobre a existência de armas.
Momentos depois, Robson Noguchi de Lima entra no quarto, seguido por Renato, que pergunta a Igor se ele possuía antecedentes criminais e se estava armado. O jovem responde negativamente.
Em seguida, o policial ordena que Igor se levante. Quando ele começa a cumprir a determinação, Renato dispara contra o rapaz. Logo depois, Robson também efetua disparos.
As imagens das câmeras corporais não registram nenhuma arma com os quatro suspeitos abordados. Após os tiros, os policiais conversam entre si afirmando que o jovem estaria armado.
“Tava armado, caralho. Tava armado”, dizem os agentes nas gravações.
Na sequência, um novo disparo é feito contra a parede enquanto os policiais continuam dando ordens para que os suspeitos “soltem a arma”.
Depois disso, os agentes colocam luvas e permanecem no interior da residência. Até o fim das gravações, não há registro da apreensão de qualquer arma com os quatro homens abordados.
Segundo a versão apresentada pelos policiais, pelo menos três suspeitos armados teriam fugido ao perceber a aproximação das motocicletas da PM e entrado em uma casa localizada em uma viela da comunidade.
Entretanto, a investigação conduzida pelo Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP) concluiu que as imagens das câmeras corporais apontam que Igor foi vítima de execução. De acordo com a apuração, os policiais não sabiam que os equipamentos estavam ligados e registravam toda a ocorrência.
As gravações mostram os agentes arrombando a porta do quarto onde Igor e outros dois homens estavam escondidos atrás de uma cama. Assim que entram no cômodo, os três levantam as mãos e se rendem.
Mesmo diante da rendição, os policiais continuam exigindo que entreguem armas, embora, segundo as imagens, os suspeitos estivessem desarmados. Igor aparece levantando as duas mãos e colocando-as atrás da cabeça, em um gesto de rendição.
Fonte: G1



