Após meses defendendo publicamente a ideia de ter uma mulher como candidata a vice, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) escolheu o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL) para compor sua chapa presidencial. A decisão frustrou integrantes da ala feminina do PL, mas recebeu o aval da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, uma das principais lideranças do grupo no partido.
Gaspar foi relator da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do INSS, que investigou descontos indevidos em aposentadorias, e construiu sua carreira na área de Segurança Pública. A escolha ganhou força na reta final das negociações, depois de sucessivas tentativas de Flávio de atrair partidos do Centrão não avançarem, reduzindo as opções para a vice.
A definição ocorreu de forma acelerada. Na véspera do anúncio, o PL havia oficializado Gaspar como candidato ao Senado por Alagoas. Menos de 24 horas depois, ele deixou o projeto estadual e embarcou de última hora para Brasília para ser apresentado como companheiro de chapa de Flávio.
Investigações sobre Lulinha influenciaram escolha
A indicação também ocorreu em um momento de novas frentes de investigação da Polícia Federal envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, ex-chefe do gabinete presidencial. Os casos são desdobramentos da investigação sobre fraudes no INSS.

A campanha de Flávio avalia que as novas apurações criam uma oportunidade para colocar o presidente Lula na defensiva e, simultaneamente, mudar o foco de crises que vinham desgastando o candidato nas semanas anteriores.
Como relator da CPI do INSS, Alfredo Gaspar tentou convocar Lulinha e chegou a solicitar o indiciamento dele em seu parecer. O relatório, entretanto, foi rejeitado pela comissão depois de articulação do governo e de partidos do Centrão para formar maioria contra o documento.
A estratégia da campanha de Flávio é aproveitar novos episódios relacionados ao caso e tentar aproximar do presidente suspeitas que, até o momento, estavam concentradas principalmente em seu filho e em pessoas de seu entorno.
Ao anunciar Gaspar, Flávio destacou a trajetória do deputado na segurança pública e sua atuação na CPI.
“A pessoa que vai estar com a gente é uma pessoa que eu aprendi a admirar, todos vocês aprenderam a admirar pela coragem e honestidade, por sua história na segurança pública, já foi promotor de Justiça, alguém que lutou pelos aposentados na CPI do INSS”, afirmou.
Quem é Alfredo Gaspar
Aos 55 anos, Gaspar construiu sua carreira na área de segurança pública. Foi promotor de Justiça durante 24 anos e secretário de Segurança de Alagoas na gestão de Renan Filho, em 2015.
Em 2020, concorreu à Prefeitura de Maceió com apoio dos Calheiros, grupo político que atualmente está alinhado ao presidente Lula. Gaspar foi o candidato mais votado no primeiro turno, mas acabou derrotado no segundo turno por JHC.
Dois anos depois, foi eleito deputado federal com 102.039 votos, segundo maior número de votos de Alagoas, atrás apenas do então presidente da Câmara, Arthur Lira (PP). Lira é hoje aliado de Gaspar e também foi beneficiado pela saída do deputado da disputa pelo Senado no estado.
Em seu primeiro discurso como candidato a vice de Flávio, Gaspar elogiou Jair Bolsonaro e ressaltou sua origem nordestina. A estratégia também busca dialogar com uma região na qual Flávio apresenta maior desvantagem em relação a Lula, segundo as pesquisas de intenção de voto.
“Vossa excelência escolheu uma pessoa simples, nordestina. Sinto falta de duas pessoas. Do meu pai, que está no céu, e do seu, que está no cativeiro. Presidente Bolsonaro, o senhor reacendeu nosso sentimento de esperança”, declarou Gaspar.
Escolha foi mantida em sigilo
A definição do candidato a vice foi conduzida em uma articulação reservada e restrita a três integrantes da cúpula da campanha.
Além de Flávio, participaram diretamente das conversas o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e o coordenador da campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN). Segundo aliados, Jair Bolsonaro também foi consultado e deu aval à escolha.
Michelle Bolsonaro não participou do anúncio. Segundo aliados, ela estava em casa cozinhando para o marido, mas manifestou apoio à indicação nas redes sociais.
“Que essa escolha receba as bênçãos de Deus e que a chapa Flávio-Alfredo possa ser vitoriosa”, escreveu a ex-primeira-dama.
Ala feminina do PL ficou frustrada
Apesar do apoio de Michelle, a escolha de Gaspar provocou insatisfação entre integrantes da ala feminina do PL. Nos últimos meses, essas lideranças trabalhavam com a expectativa de que uma mulher ocuparia a vice na chapa presidencial.
Reservadamente, aliadas questionaram a mudança de estratégia e avaliaram que o próprio PL teria nomes femininos capazes de exercer funções semelhantes às atribuídas ao novo candidato a vice.
O principal ponto de incômodo é a mudança em relação ao discurso adotado pelo próprio Flávio durante a pré-campanha. Em diferentes ocasiões, o senador afirmou que preferia uma mulher como vice. A estratégia também era defendida por auxiliares, diante da resistência que o candidato enfrentava entre o eleitorado feminino.
Durante o evento em que anunciou Gaspar, Flávio voltou a mencionar as mulheres, mas relacionou o papel feminino aos cuidados com idosos.
“Muitas vezes, quem tem que tomar conta dos idosos são as mulheres. Eu fiz duas filhas exatamente para isso. Quando eu ficar velhinho, eu vou ter quem vai tomar conta de mim porque as mulheres são assim: são família, são coração, são sentimento, são sensibilidade”, afirmou.
Fonte: OGLOBO



