Agressões contra mulheres sobem 28,9% em dias de jogos de futebol

Registros de agressões contra mulheres relacionadas à violência doméstica aumentam em dias de jogos de futebol, aponta a segunda edição do estudo “Futebol e violência contra a mulher”, elaborado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). O levantamento identificou alta de 28,9% nas ocorrências de lesão corporal dolosa e de 27,4% nos casos de ameaça nessas datas.

O estudo foi divulgado nesta terça-feira (11), na sede do Grupo Mulheres do Brasil, em São Paulo, durante um evento que contou com a participação da empresária Luiza Trajano e de especialistas que atuam no enfrentamento à violência contra as mulheres.

A pesquisa analisou registros de ocorrências e sua relação com partidas da Série A do Campeonato Brasileiro, da Copa Libertadores da América e da Copa Sul-Americana em cinco capitais: São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Belo Horizonte e Porto Alegre.

Os resultados apontam que os dias de jogos podem representar um fator adicional de risco para episódios de violência doméstica contra mulheres. O impacto é ainda maior entre meninas e mulheres jovens. Entre vítimas de 15 a 29 anos, os registros de ameaça e de lesão corporal dolosa aumentaram 44,4% em dias de partidas.

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Futebol e violência doméstica

Segundo o FBSP, o estudo parte da hipótese de que o calendário do futebol brasileiro pode funcionar como um marcador temporal de risco para episódios de violência doméstica. A análise considera que características presentes no ambiente esportivo, como rivalidade, competição, virilidade e dominação, podem ultrapassar os estádios e repercutir dentro de casa.

Para Juliana Brandão, coordenadora de Gênero e Raça do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, os dados podem contribuir para o planejamento de medidas de prevenção e proteção às mulheres.

“Os dias de jogo são, hoje, fatores de risco comprovados para a violência doméstica contra mulheres”, afirma.

Segundo a especialista, identificar os períodos de maior risco pode ajudar a reforçar a atuação de unidades especializadas, como as Delegacias da Mulher, além das patrulhas responsáveis pela fiscalização de medidas protetivas de urgência.

Juliana também defende uma participação maior dos clubes de futebol no combate à violência contra as mulheres. Na avaliação dela, os times podem aproveitar a influência de atletas, torcidas e marcas para incentivar comportamentos que desvinculem a paixão pelo futebol de práticas violentas.

Índices superam levantamento anterior

A nova edição atualiza uma pesquisa publicada pelo FBSP em 2022, que analisou dados referentes ao período de 2015 a 2018.

Naquele levantamento, os registros de ameaça contra mulheres aumentavam 23,7% em dias de jogos, enquanto os casos de lesão corporal dolosa cresciam 20,8%.

Na pesquisa atual, os índices passaram para 27,4% nas ameaças e 28,9% nas lesões corporais dolosas. Em comparação com o estudo anterior, isso representa uma alta de 3,7 pontos percentuais nos registros de ameaça e de 8,1 pontos percentuais nas ocorrências de lesão corporal dolosa.

O FBSP afirma que a metodologia adotada na nova pesquisa segue a mesma linha do levantamento de 2022, permitindo comparar os resultados ao longo do tempo.

Relação entre futebol e violência

A tentativa de identificar uma associação entre partidas de futebol e episódios de violência não é inédita. De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, estudos realizados principalmente em países anglo-saxônicos já encontraram relação entre jogos de futebol e o aumento de episódios violentos.

No entanto, pesquisas com essa abordagem ainda são pouco comuns em países em desenvolvimento, especialmente no Brasil. O novo levantamento busca ampliar a discussão ao analisar registros de violência contra mulheres em diferentes cidades brasileiras e sua relação com o calendário das principais competições nacionais e internacionais disputadas por clubes do país.

Para Ana Luiza Herzog, diretora de reputação e sustentabilidade do Magazine Luiza, a atualização dos dados ajuda a manter o tema em debate.

“Em função da nossa trajetória de combate à violência contra a mulher, era crucial apoiar a análise da conexão de dois temas tão intrínsecos à cultura do nosso país”, afirmou.

A segunda edição do estudo “Futebol e violência contra a mulher” está disponível no site do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Fonte: G1