De olho em 2026, Lula se reaproxima de Motta e Alcolumbre por agenda no Congresso

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) intensificou nas últimas semanas o diálogo com os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP). A aproximação combina a tentativa de aprovar pautas prioritárias do Palácio do Planalto antes do primeiro turno das eleições de 2026 com interesses dos atuais chefes do Congresso em garantir apoio para permanecer no comando das Casas em 2027.

No entorno de Lula, a avaliação é que o governo precisa avançar em temas de forte apelo popular, como a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que prevê o fim da jornada de trabalho 6×1, para apresentar essas medidas como vitrine na campanha pela reeleição.

Na semana passada, Lula se reuniu separadamente com Motta e Alcolumbre. O encontro com o presidente da Câmara também envolveu a decisão do Republicanos de manter neutralidade na disputa presidencial, considerada uma vitória para o governo. Participaram da reunião o presidente da sigla, Marcos Pereira (SP), o ministro José Guimarães, da Secretaria de Relações Institucionais, e o presidente do PT, Edinho Silva.

Motta busca apoio para continuar na Câmara

Durante a conversa, houve também uma sinalização de que Hugo Motta pretende contar com o apoio de Lula e do PT para sua recondução à presidência da Câmara. A eleição está marcada para fevereiro de 2027, mas o deputado já articula apoios nos bastidores.

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Motta declarou publicamente que apoiará Lula nas eleições de outubro. Por trás desse movimento está também o interesse do presidente da Câmara em ajudar a eleger seu pai, o ex-prefeito Nabor Wanderley (Republicanos), para uma vaga no Senado pela Paraíba.

Wanderley integra a chapa apoiada por Lula no estado. O presidente, porém, já declarou que seus candidatos ao Senado na Paraíba são o ex-governador João Azevêdo (PSB) e o senador Veneziano Vital do Rêgo (MDB), que busca a reeleição.

Um integrante da campanha de Lula afirmou que Wanderley é visto como aliado do presidente e que não está descartado um gesto de apoio durante a campanha.

Outro aliado do petista avalia que o caminho para um eventual apoio à recondução de Motta está avançado. Entre os fatores citados estão o empenho do deputado na aprovação da agenda governista nos últimos meses, a aproximação com Lula e os gestos públicos de apoio ao presidente.

Relação com Alcolumbre ainda é incerta

A situação com Davi Alcolumbre é menos definida. Lula e o presidente do Senado voltaram a se reunir na semana passada, pela primeira vez após mais de três meses sem contato. O encontro foi articulado pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Os dois haviam se afastado depois que o Senado rejeitou a indicação de Jorge Messias para uma vaga no STF. A votação representou uma derrota histórica para Lula, e o Palácio do Planalto atribui a Alcolumbre a articulação do resultado contra o então advogado-geral da União.

Um interlocutor frequente do presidente afirma que ainda existem desconfianças em relação à postura de Alcolumbre e que seriam necessários gestos do senador para reduzir a tensão. Ao mesmo tempo, ressalta que a retomada do diálogo institucional é importante para que a agenda do governo avance no Congresso.

Entre governistas, havia expectativa de um novo encontro entre Lula e Alcolumbre nesta quarta-feira (12), com o objetivo de pavimentar a aprovação das prioridades do Planalto.

Segundo informações da colunista do GLOBO Bela Megale, aliados próximos de Alcolumbre afirmam que o presidente do Senado também mudou o tom em relação à possibilidade de apoiar novamente a indicação de Messias ao STF. O senador já não demonstraria a mesma resistência apresentada semanas antes.

Eleição no Amapá preocupa Alcolumbre

Alcolumbre também pretende disputar novamente a presidência do Senado em 2027. A eleição ocorrerá depois de uma renovação de dois terços das cadeiras da Casa em outubro.

A expectativa no entorno do senador é que a próxima composição do Senado tenha mais parlamentares alinhados à direita bolsonarista, cenário que preocupa o atual presidente da Casa.

Como está no meio do mandato, Alcolumbre não disputará uma eleição em 2026. Seu foco, porém, está em ajudar o governador do Amapá, Clécio Luís (União Brasil), a conquistar a reeleição e fortalecer seu grupo político para a eleição de 2030, com apoio de Lula.

O cenário estadual é considerado desafiador. Clécio aparece atrás nas pesquisas de intenção de voto para seu adversário político, o ex-prefeito Dr. Furlan (PSD).

Aliados de Alcolumbre também afirmam que passou por sua articulação a decisão de o União Brasil permanecer neutro na disputa presidencial, interpretada por eles como um gesto em direção a Lula.

União Brasil e PP formam uma federação e os dois partidos chegaram a sinalizar apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principal adversário de Lula na disputa presidencial, mas recuaram.

Petistas avaliam que a decisão foi mais influenciada pela leitura dos principais nomes do Centrão de que Lula tem mais chances de vencer a eleição do que por uma iniciativa específica em favor do presidente. Ainda assim, reconhecem que a neutralidade das siglas é relevante, entre outros motivos, porque não amplia o tempo de televisão de Flávio Bolsonaro em uma disputa considerada acirrada.

Nesse cenário, o PT já mantém conversas com integrantes de partidos do Centrão sobre a possibilidade de participação dessas legendas em um eventual quarto governo Lula. A articulação busca atrair mais forças políticas para um possível segundo turno.

Governo cobra avanço de pautas prioritárias

Para o Palácio do Planalto, porém, a aproximação precisa ser acompanhada de gestos imediatos. Em reunião com a bancada do PT na Câmara, Edinho Silva afirmou que, para Alcolumbre efetivamente se aproximar de Lula, seria necessário aprovar projetos de interesse do governo.

Entre as prioridades estão a PEC que acaba com a escala 6×1, considerada a número 1, a PEC da Segurança Pública e o projeto que estabelece regras e busca estimular a participação da indústria nacional na exploração de minerais críticos.

O próprio Lula reforçou a defesa do fim da jornada 6×1 nas redes sociais. Em uma publicação, afirmou que “os trabalhadores do nosso país não podem mais esperar” e que “chegou a hora de aprovarmos” o fim da escala.

O governo pretende aproveitar duas semanas de esforço concentrado no Congresso para tentar destravar os projetos. Além desta semana, estão previstas sessões entre 31 de agosto e 3 de setembro.

“Taxa das blusinhas” também preocupa o Planalto

Outro assunto acompanhado pela articulação política do governo é a medida provisória (MP) que acaba com a chamada “taxa das blusinhas”, cobrança de 20% sobre compras internacionais.

A medida é considerada um tema de desgaste para o Planalto e precisa ser votada até 8 de setembro para não perder a validade. Antes disso, ainda é necessária a instalação de uma comissão mista, formada por deputados e senadores, para analisar o texto antes da votação nos plenários das duas Casas.

Em um gesto ao governo, Motta afirmou na terça-feira que pretende discutir com Alcolumbre a instalação da comissão mista.

O presidente da Câmara também classificou o projeto que permite a redução de impostos sobre combustíveis como uma “pauta prioritária do governo”. Segundo ele, a proposta poderá ser utilizada para incluir outros temas de interesse do Planalto, como medidas de estímulo à produção de fertilizantes e questões relacionadas aos minerais críticos.

“A pauta prioritária do governo é o PLP dos combustíveis”, disse Motta.

Fonte: OGLOBO