Polícia apreende detector de drones em favela controlada por traficante em Duque de Caxias

A Polícia Militar apreendeu neste mês um equipamento capaz de detectar a presença de drones durante uma operação na Favela do Corte Oito, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. O dispositivo foi localizado junto a drogas e armas e, segundo a polícia, consegue identificar quando uma aeronave não tripulada está sobrevoando a região.

Com aparência semelhante à de um rádio comunicador, o aparelho emite um alerta sonoro quando detecta um drone nas proximidades.

A comunidade onde ocorreu a apreensão é controlada pelo traficante Jonatha Hyrval Cassiano da Silva, conhecido como Bochecha Rosa. Em um dos fuzis encontrados junto ao dispositivo havia a sigla “BX”, em referência ao apelido do criminoso.

Bochecha Rosa é o mesmo traficante que apareceu em uma reportagem do Fantástico utilizando outro tipo de equipamento contra drones, uma espécie de “bazuca anti-drone”. O dispositivo consegue interromper o sinal de aeronaves não tripuladas que estejam sobrevoando determinada área.

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Na ocasião, o criminoso tentou usar o aparelho contra uma equipe de reportagem que produzia imagens na região do Complexo da Penha.

Além dos dispositivos utilizados para detectar ou bloquear drones, investigadores já identificaram equipamentos capazes de localizar o operador. O sistema apresenta as coordenadas de onde estaria o piloto e cruza os dados com o mapa da região.

O avanço do uso de drones pelo crime organizado passou a ser investigado pela polícia após uma série de ataques com explosivos. Desde domingo, reportagens da TV Globo exibiram flagrantes de equipamentos utilizados para lançar granadas em diferentes locais do Rio.

De acordo com a Polícia Civil, 18 ataques estão sob investigação, embora exista a suspeita de que o total de ocorrências seja maior.

A Secretaria de Segurança Pública afirmou reconhecer os riscos associados à utilização de drones pelo crime organizado e declarou que o combate à prática exige integração entre diferentes órgãos. Segundo a pasta, o governo federal deverá destinar drones e equipamentos antidrones para as forças de segurança do estado.

A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) informou que está à disposição das polícias para oferecer suporte técnico. A agência também afirmou que, desde 2019, retirou do mercado quase 50 mil drones e mais de mil bloqueadores.

Facções oferecem cursos para operação de drones

Imagens produzidas pela polícia mostram uma grande quantidade de pessoas reunidas em uma quadra onde, há duas semanas, estaria sendo realizado um curso de operação de drones. Segundo as investigações, as aulas seriam ministradas por traficantes no Complexo da Penha, na Zona Norte do Rio.

A capacitação integra, de acordo com a polícia, o avanço do uso dos equipamentos pelo crime organizado, que passou a adaptar drones para lançar granadas contra grupos rivais.

O problema também preocupa pilotos. Alguns drones já foram identificados sobrevoando regiões próximas às rotas de helicópteros e aeronaves que chegam e partem do Aeroporto de Jacarepaguá, na Zona Oeste.

Um piloto ouvido pelo RJ2 afirmou que uma eventual colisão pode causar danos graves e até tornar uma aeronave incontrolável.

Na semana passada, criminosos utilizaram um drone carregando uma granada para atacar rivais na comunidade do Canal, em Vargem Grande. O explosivo atingiu um trailer, mas ninguém ficou ferido.

Segundo a Polícia Militar, traficantes alugaram um apartamento na cobertura de um prédio no Recreio dos Bandeirantes e utilizaram o imóvel como ponto de decolagem do drone.

A distância entre o local de lançamento e o ponto onde a bomba foi despejada era de aproximadamente dois quilômetros. O equipamento percorreu o trajeto em poucos segundos, sobrevoando um terreno vazio, o Rio Morto e áreas residenciais.

A PM prendeu dois homens suspeitos de envolvimento no ataque. Com eles, foram apreendidas outras granadas de fabricação caseira, dinheiro e o drone utilizado na ação.

Governo anunciou investimento de R$ 27 milhões em sistema antidrones

Há cerca de um ano, o Governo do Estado anunciou um investimento de R$ 27 milhões para adquirir um sistema antidrones destinado às forças de segurança do Rio.

A previsão era comprar 80 equipamentos com capacidade para detectar drones e derrubar dispositivos utilizados por criminosos.

A licitação, porém, foi cancelada ainda no início do processo. Segundo o governo, mudanças nas regras de frequência estabelecidas pela Agência Nacional de Telecomunicações afetaram a aquisição.

Outro obstáculo citado pelos investigadores é a fiscalização dos drones usados pelas facções criminosas.

Em operações regulares, cabe à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) a habilitação dos pilotos. O Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea), da Força Aérea Brasileira, é responsável por autorizar os voos, enquanto a Anatel regulamenta e fiscaliza os equipamentos comercializados no país.

Parte dos drones utilizados pelo crime organizado, entretanto, é adquirida pela internet e importada de outros países, o que dificulta o controle e a fiscalização.

Drones são vendidos legalmente, mas voos têm restrições

Um dos desafios para enfrentar a utilização criminosa de drones é o fato de que esses equipamentos são comercializados legalmente e podem ser comprados com facilidade pela internet.

Os voos, no entanto, estão sujeitos a regras de segurança. Existem restrições para operações próximas a aeroportos e helipontos, além da necessidade de autorização para determinadas atividades no espaço aéreo.

Também é proibido voar acima de 400 pés, o equivalente a aproximadamente 120 metros, nas situações abrangidas pela regulamentação aplicável.

Segundo as investigações, os criminosos desrespeitam essas normas.

A polícia também encontrou indícios de que integrantes do crime organizado estão ensinando outras pessoas a operar os equipamentos. Imagens registradas há cerca de duas semanas mostram uma fila de interessados em participar de um curso que seria oferecido por criminosos no Complexo da Penha.

Ruas e vielas são cobertas no Complexo do Alemão

Imagens aéreas obtidas pelo RJ2 mostram que ruas e vielas do Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio, estão sendo cobertas por estruturas que dificultam o monitoramento realizado com drones.

O levantamento foi produzido pela inteligência da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), da Polícia Civil. Os agentes compararam imagens de satélite registradas em novembro de 2025 com imagens aéreas produzidas em fevereiro de 2026.

Em um intervalo de apenas 84 dias, foram identificadas mudanças na paisagem.

Em determinados locais, vias que antes podiam ser visualizadas nas imagens aéreas passaram a ficar escondidas sob telhados. Em um dos pontos analisados, uma área antes utilizada como estacionamento recebeu uma cobertura de alvenaria. Em outro, uma laje passou a contar com uma piscina.

As construções estão localizadas em uma região central do Complexo do Alemão classificada pela polícia como de difícil acesso tanto por terra quanto pelo ar. Segundo os investigadores, também seria nessa área que estaria escondida a cúpula do Comando Vermelho.

A suspeita da polícia é de que os telhados tenham sido construídos para dificultar ataques com explosivos lançados por drones de facções rivais. Ao mesmo tempo, as estruturas prejudicam as ações de monitoramento das forças de segurança.

“Eu acredito que o emprego principal desses telhados que vêm sendo colocados em algumas comunidades seja evitar o lançamento de artefatos explosivos por facções rivais. Mas, obviamente, isso traz um prejuízo muito grande para o monitoramento feito pela polícia, por exemplo”, afirmou Marcos Motta, coordenador da Coordenadoria de Operações com Aeronaves Não Tripuladas (Coant).

No Rebu, em Senador Camará, na Zona Oeste, uma rua localizada às margens da linha do trem também está quase totalmente coberta.

Em abril, a Polícia Civil e a Prefeitura de Niterói destruíram parte de uma estrutura semelhante que havia sido construída em uma comunidade da cidade.

Fonte: G1