Seis dias após as avalanches e inundações que devastaram o Nepal e o Tibete, equipes de resgate intensificam as buscas por centenas de trabalhadores desaparecidos, muitos deles possivelmente presos em túneis de projetos hidrelétricos na região mais atingida pela catástrofe.
Somente no Nepal, o número de mortos já supera 900, e as autoridades temem que o total continue aumentando nos próximos dias.
A preocupação cresceu principalmente nas últimas 24 horas. Segundo dados divulgados nesta segunda-feira (31/8) pela Autoridade Nacional para a Redução e Gestão de Risco de Desastres do Nepal, o número de desaparecidos saltou de 2.502 para 3.925.
Entre eles estão 639 trabalhadores ligados a diferentes projetos hidrelétricos, tanto em operação quanto em construção, localizados justamente na área mais afetada pelo desastre.

As autoridades trabalham com a possibilidade de que muitos desses funcionários tenham ficado presos nos túneis utilizados para desviar a água dos rios do Himalaia em direção às turbinas das usinas hidrelétricas.
Para acelerar a retirada de escombros e ampliar as buscas, as equipes empregam máquinas pesadas, drones, cães treinados e explosivos. As informações foram divulgadas no domingo (30/8) pelo escritório do primeiro-ministro do Nepal.
Especialistas da China, Índia e Coreia do Sul também se juntaram, nas últimas horas, às operações de procura pelos desaparecidos nos túneis.
Atenção concentrada na usina Trishuli-3A
A catástrofe ocorrida na quarta-feira (26) atingiu cerca de 13 projetos hidrelétricos distribuídos ao longo dos rios Bhote Koshi e Trishuli, especialmente no distrito de Rasuwa, na fronteira com o Tibete, território controlado pela China.
Uma das maiores preocupações está na usina Trishuli-3A, construída entre 2011 e 2019. A instalação possui um túnel de adução com mais de 4 km de extensão.
Por essa estrutura, a água do rio Trishuli é direcionada para uma casa de máquinas subterrânea, onde estão instaladas duas turbinas com capacidade de 30 MW cada.
As autoridades suspeitam que centenas de trabalhadores possam estar presos nesse túnel. Cerca de 90 socorristas, entre soldados, policiais e integrantes da defesa civil, foram enviados à hidrelétrica nas últimas horas.
Com o uso de maquinaria pesada e explosões controladas, as equipes conseguiram abrir um acesso com aproximadamente 10 metros de profundidade.
Os socorristas enviaram mensagens pela abertura, mas, até o momento, “não receberam resposta do lado interno”, segundo informou o escritório do primeiro-ministro do Nepal em sua conta no X.
“Estes túneis são suficientemente grandes para a passagem de caminhões. Existe espaço suficiente para que as pessoas se refugiem ali”, explicou à imprensa mexicana o professor Jakob Steiner, da Universidade de Graz, na Áustria.
A suspeita das autoridades é de que a maior parte dos trabalhadores desaparecidos esteja no túnel da Trishuli-3A.
Há, no entanto, a possibilidade de dezenas de outros funcionários estarem presos em instalações semelhantes, entre elas Trishuli-1 e Trishuli-3B, ambas ainda em construção, além de Chilime, inaugurada em 2003 e situada a cerca de 28 km de Trishuli-3A.
Nas últimas horas, militares do Exército nepalês conseguiram entrar no túnel do projeto hidrelétrico de Rasuwagadhi, mas não encontraram ninguém. Drones também foram utilizados pelos soldados para percorrer o interior do corredor em busca de sobreviventes.
Expansão hidrelétrica no Nepal
Apesar de a região ser vulnerável a fenômenos naturais como terremotos, inundações e deslizamentos de terra, o setor hidrelétrico viveu uma expansão no Nepal ao longo da última década.
A grande quantidade de água que percorre os rios íngremes do Himalaia, somada à proximidade com a China, transformou o corredor fluvial do distrito de Rasuwa em uma das áreas com maior concentração de projetos hidrelétricos do país. Parte das usinas já está em funcionamento, enquanto outras seguem em construção.
Essa expansão atraiu trabalhadores não qualificados de diferentes regiões do Nepal. Segundo o jornal norte-americano The New York Times, o capital chinês está por trás de muitos desses projetos.
Famílias mantêm esperança de encontrar sobreviventes
Enquanto as buscas prosseguem, centenas de famílias aguardam notícias de parentes desaparecidos desde a catástrofe.
Sita Pandey é uma delas. O marido trabalhava na central hidrelétrica Trishuli-3A e, mesmo após vários dias sem notícias, ela ainda acredita na possibilidade de encontrá-lo vivo.
“Ainda tenho 50% de esperança de que ele esteja vivo, pois existe um sistema de oxigênio no lado interno”, declarou Pandey ao jornal nepalês Kantipur.
Ela, no entanto, reconhece que a passagem do tempo reduz as chances.
“A cada hora que passa, esta esperança se desvanece”, afirmou.
Priya Kharel enfrenta situação semelhante. O irmão dela trabalhava na construção da central Trishuli-1 quando ocorreu o desastre.
“Aqueles que regressaram dizem que há pessoas dentro do túnel”, contou. “Por isso, espero que ele possa ser resgatado se o exército o encontrar logo.”
A demora nas operações também vem provocando frustração entre familiares dos desaparecidos.
“Quanto mais se prolongar esta situação, mais se desvanece a nossa esperança”, declarou à imprensa local Jiban Khadka, que também tem um familiar preso na usina.
“A operação deve avançar com muito mais rapidez, pois cada segundo conta para nós. É uma operação desesperadamente lenta.”
Durante o fim de semana, os socorristas começaram a bombear ar para dentro do túnel. Algumas famílias consideram que a medida deveria ter sido adotada antes.
Apesar das dificuldades, entre sexta-feira e sábado (28 e 29), as equipes conseguiram resgatar 279 trabalhadores de centrais hidrelétricas que estavam presos em diferentes túneis, segundo as autoridades nepalesas.
Ram Chandra, um dos sobreviventes, relatou os momentos vividos dentro de uma das estruturas.
“Eu estava agarrado a uma viga no teto. A água continuava subindo dentro do túnel e eu tinha cada vez mais dificuldade de mover minhas pernas”, contou.
“Se eu tivesse me soltado, teria caído naquela mistura de água e cimento.”
Fonte: G1



