A perícia da Polícia Civil de São Paulo identificou falhas na lacração de 27 dispositivos eletrônicos apreendidos durante uma operação realizada em junho contra empresas e endereços relacionados à produtora do filme “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. Os equipamentos foram devolvidos para que os invólucros fossem adequados antes da realização dos exames.
Posteriormente, os aparelhos foram novamente lacrados e analisados pela perícia. Os documentos anexados ao processo, porém, não informam se a Polícia Civil verificou a integridade dos equipamentos nem se houve eventual violação em razão das falhas encontradas nos lacres.
“As guias […] apresentam vão suficiente para retirada da peça [pendrive] a ser periciada”, afirmou a perita criminal Viviane Menezes.
Segundo os documentos, os problemas foram constatados em nove notebooks, cinco celulares e 13 pen drives, totalizando 27 dispositivos.

Os documentos integram o inquérito da Polícia Civil de São Paulo que foi compartilhado com a Polícia Federal por determinação do ministro Flávio Dino. O relatório tornou-se público neste domingo (13), depois que o ministro do Supremo Tribunal Federal retirou o sigilo de documentos encaminhados pela Justiça paulista.
Os equipamentos haviam sido apreendidos em uma operação realizada no dia 1º de junho em residências e empresas relacionadas ao Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidido por Karina Ferreira da Gama.
Karina também é responsável pela Go Up Entertainment, produtora de “Dark Horse”, filme que retrata a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
A operação foi deflagrada por suspeitas de fraude em um contrato firmado entre a Prefeitura de São Paulo e o ICB no valor de R$ 108 milhões por ano para a instalação de pontos de wi-fi na cidade.
A Polícia Civil investiga se parte desses recursos teria sido desviada para financiar a produção do filme “Dark Horse”.
O contrato com a Prefeitura de São Paulo previa a instalação de 5 mil pontos de wi-fi gratuito na periferia até junho de 2025. Até a presente data, no entanto, apenas 3.200 haviam sido instalados. Pelo menos três aditivos foram assinados alterando o prazo para a entrega total do serviço.
Em outro ofício, a mesma perita relatou que, nos notebooks e celulares apreendidos, as aberturas existentes nos lacres eram grandes o suficiente para permitir a passagem de cabos de alimentação e transferência de dados.
“As guias […] apresentam vão suficiente para entrada de cabo de alimentação e transferência de dados, sendo possível a manipulação dos dados no interior do equipamento”, afirmou Viviane Menezes.
Os ofícios foram formalizados em 3 de junho, dois dias após a operação da Polícia Civil. Cinco dias depois, em 8 de junho, os dispositivos foram encaminhados à 2ª Delegacia de Polícia de Investigações Sobre Crimes Contra a Administração Pública do Estado de São Paulo para a “readequação dos invólucros”.
“Retornaram do Instituto de Criminalística os objetos anteriormente encaminhados para a realização de exames periciais, para readequação da lacração, a fim da preservação da cadeia de custódia”, justificou o escrivão da Polícia Civil.
Depois de retornarem ao Instituto de Criminalística, os equipamentos permaneceram até 23 de julho aguardando análise. Segundo os documentos, a demora ocorreu em razão do “elevado volume de casos e à consequente fila de exames pendentes sob responsabilidade deste perito”.
Apesar da constatação das falhas nos lacres, os documentos anexados ao processo não esclarecem se a integridade dos aparelhos foi examinada nem se algum dos dispositivos chegou a ser violado durante o período em que permaneceu acondicionado de forma inadequada. Os registros mostram apenas que os dados foram posteriormente extraídos e disponibilizados à delegacia responsável pela investigação.
Fonte: G1



