Eduardo sempre quis conhecer o mundo. Tatuador, poliglota e acostumado a viajar por diferentes países, o brasileiro construiu uma vida marcada por aventuras, amizades e deslocamentos. Passou pelo Peru, Chile, Colômbia e Venezuela, viajou ao lado de amigos europeus e americanos, atravessou lugares de barco e fazia tatuagens durante as viagens.
Aos 30 anos, porém, a trajetória de Eduardo terminou em meio à guerra na Ucrânia. A mãe dele, que acompanhou à distância a decisão do filho de viajar para o país, conta que tentou alertá-lo sobre os riscos e passou a investigar relatos de brasileiros que haviam seguido o mesmo caminho.
A história começou a ganhar outro rumo no fim do ano, durante a reunião da família para o Natal e o Ano-Novo. Foi quando Eduardo contou, pela primeira vez, que pretendia ir para a Ucrânia.
“Eu vou para a Ucrânia”, disse ele naturalmente. A mãe chegou a rir e perguntou o que ele faria no país. Eduardo respondeu que iria como médico socorrista e que já havia se alistado.

Inicialmente, a família não levou a decisão tão a sério. Depois, preocupada com a possibilidade de o filho se envolver em uma guerra do outro lado do mundo, a mãe voltou a conversar com ele.
Foi então que Eduardo explicou o motivo que considerava essencial para a decisão.
“Mãe, eu tenho um sonho de ajudar as pessoas.”
Ela tentou convencê-lo de que não seria necessário ir para uma guerra para ajudar outras pessoas e que poderia exercer esse propósito no Brasil. Eduardo, entretanto, estava decidido.
“É meu sonho. Eu vou para lá.”
A determinação fazia parte da personalidade de Eduardo. Segundo a mãe, quando colocava alguma coisa na cabeça, era difícil fazê-lo mudar de ideia.
O pai de Eduardo havia servido no Exército brasileiro e participado de uma missão da ONU. O filho cresceu vendo fotografias dessa época e também tentou servir às Forças Armadas no Brasil, mas não conseguiu. Para a mãe, essa história familiar teve influência na decisão de viajar para a Ucrânia.
Eduardo chegou a levar fotografias do pai para mostrar aos militares ucranianos.
Ele também havia começado a estudar medicina no Paraguai e dizia à mãe que trabalharia como socorrista. Contava que aprenderia a operar drones, mas afirmava que sua função seria atender feridos.
“Lá é só aplicar torniquete”, dizia.
A mãe, porém, desconfiava das informações que o filho recebia. Ela passou a pesquisar histórias de brasileiros que haviam viajado para a Ucrânia e encontrou relatos de famílias que perderam filhos e permaneceram sem respostas.
“Edu, isso é mentira. Estão enganando vocês”, dizia.
Eduardo respondia que aquilo era coisa da cabeça dela e pedia que não acreditasse nas histórias publicadas nas redes sociais. Mesmo assim, ela continuou pesquisando, porque permanecia inquieta com a situação.
A viagem para a Ucrânia
Em abril, Eduardo decidiu viajar. A passagem foi paga pela avó dele, usando o cartão dela. Até hoje, segundo a mãe, ela se culpa pela compra e pensa que, se não tivesse adquirido a passagem, talvez o neto ainda estivesse vivo.
No início, tudo parecia uma aventura. Eduardo estava feliz com a novidade e com a experiência de estar em um lugar novo. A sensação, entretanto, durou pouco.
Na segunda semana, ele ficou doente e teve febre alta. Foi nesse período que disse à mãe uma frase que ela jamais esqueceu:
“Acho que fomos enganados.”
Eduardo começava a perceber que a realidade encontrada na Ucrânia não correspondia exatamente ao que imaginava quando decidiu viajar.
Depois de aproximadamente uma semana de treinamento, ele recebeu a informação de que seria enviado para uma missão. A mãe não entendia como aquilo poderia acontecer depois de tão pouco tempo no país.
“Como você vai para uma missão? Você está aí há uma semana.”
Na primeira vez, Eduardo não chegou a participar porque estava com quase 40 graus de febre. Depois, passou a enviar à mãe documentos, contratos e outros papéis que recebia.
“Não assina isso. Não vai para missão”, ela dizia.
A partir daí, os acontecimentos se desenrolaram rapidamente.
O último contato
Em 17 de maio, Eduardo telefonou para praticamente toda a família. Ligou para a mãe, tias, irmã e tios, avisando que estava indo para uma missão.
“Estou indo para a missão.”
A notícia deixou todos assustados. Para a família, não fazia sentido que Eduardo fosse enviado tão rapidamente para uma missão, já que ele ainda não estava havia nem um mês na Ucrânia e praticamente não havia recebido treinamento.
Na conversa com a mãe, Eduardo deixou uma orientação que se tornaria especialmente dolorosa depois.
“Se eu não voltar em três dias, você procura essas pessoas.”
Ele passou contatos para a mãe. Aquela foi a última conversa de fato entre os dois.
No domingo, ela ainda tentou falar com o filho, mas Eduardo já não atendia. A partir daquele momento, ela começou a contar os dias, lembrando da promessa de três dias.
Na terça-feira, a mãe acordou com uma sensação diferente. Ela conta que costuma levantar todos os dias às cinco da manhã para fazer seu devocional. Naquele dia, decidiu limpar a casa antes de estudar.
Por volta das 13h30, enquanto terminava a limpeza da lavanderia, sentiu um calafrio percorrer o corpo, acompanhado de um aperto no coração e de uma dor na nuca. Naquele momento, pensou imediatamente no filho.
No dia seguinte, por volta das 14h, recebeu uma ligação da própria mãe. A irmã havia encontrado, pelo Instagram, uma informação de que Eduardo teria morrido.
Ela não conseguia acreditar na maneira como a notícia havia chegado à família.
Como alguém poderia informar a morte de seu filho daquela forma? Quem estava dando aquela informação? Como acreditar em uma notícia recebida pelo Instagram?
Ela começou a procurar os contatos que Eduardo havia deixado. Ninguém respondia. Quinta-feira passou sem respostas. Sexta-feira também.
A fotografia que a mãe nunca conseguiu olhar
Havia uma fotografia do corpo de Eduardo. A mãe, porém, não teve coragem de vê-la.
Pediu que outros familiares verificassem a imagem. O irmão, a filha e outros parentes olharam. O irmão ainda mostrou a fotografia a um amigo. Todos disseram reconhecer Eduardo.
Ela, até hoje, não conseguiu olhar a imagem.
Durante algum tempo, ainda surgiram pessoas dizendo que Eduardo estava desaparecido e que não estaria morto. Para a mãe, entretanto, não havia dúvida de que o filho morreu.
O que permanece é a ausência de um ritual de despedida.
Quando alguém morre, existe a possibilidade de enterrar ou cremar o corpo e realizar uma despedida. No caso de Eduardo, nada disso aconteceu.
Ele morreu em uma guerra a milhares de quilômetros do Brasil, e o corpo permanece lá.
Eduardo havia acabado de completar 30 anos, mesma idade que o pai tinha quando morreu em um acidente de carro.
A mãe conta que, em alguns momentos, se pergunta o que poderia ter feito diferente. Pensa que, se pudesse escolher, gostaria que o filho estivesse dentro de casa, vivendo perto dela.
Mas Eduardo sempre demonstrou querer uma vida diferente.
Desde pequeno, dizia que, quando completasse 18 anos, seguiria a própria vida. E foi o que fez.
Ele queria conhecer o mundo. Quando a mãe dizia que ele gastaria todo o dinheiro nas viagens, Eduardo respondia:
“Pelo menos eu conheci o mundo.”
E conheceu.
A lembrança que ficou
Apesar da morte na guerra, a mãe diz que não quer que a primeira lembrança sobre Eduardo seja associada ao conflito.
Ela prefere recordar o menino alegre e extrovertido que conhecia desde a infância. Um jovem simpático, carismático e capaz de conversar com qualquer pessoa, conquistando amigos por onde passava.
Era, segundo ela, uma pessoa apaixonante desde bebê e manteve esse jeito ao longo da vida.
Inteligente, Eduardo falava diferentes línguas, resolvia problemas e gostava de ajudar outras pessoas. Criado dentro da igreja, conhecia a Bíblia e carregava consigo o desejo de fazer o bem.
É desse Eduardo que a mãe quer se lembrar.
Ainda assim, existe uma realidade que ela afirma não conseguir aceitar completamente.
Ela sabe que o filho morreu e reconhece que a ida para a Ucrânia foi uma escolha dele. Mas não possui um túmulo, uma certidão de óbito ou o corpo do filho.
Tem apenas uma carta informando que ele está desaparecido e uma fotografia que nunca conseguiu olhar.
Busca por respostas
Depois da morte do filho, a mãe passou a buscar informações por conta própria. Sentou diante do computador e começou a procurar caminhos para entender o que havia acontecido.
Entrou em contato com o Itamaraty, enviou e-mails, buscou documentos e conversou com soldados, comandantes e brasileiros que estavam na Ucrânia.
De repente, passou a tentar compreender um universo que nunca havia feito parte de sua vida.
Hoje, ela também ajuda outras mães a percorrer esse mesmo caminho. Algumas, segundo ela, sequer sabiam que os filhos estavam na Ucrânia e só descobriram a viagem quando receberam a notícia da morte.
No caso de Eduardo, ela pelo menos sabia onde o filho estava. Tentou alertá-lo, avisou que aquilo poderia não corresponder ao que havia sido prometido e procurou convencê-lo de que havia algo errado.
Mas Eduardo havia tomado sua decisão.
E foi o próprio filho quem, já na Ucrânia, acabou dizendo à mãe aquilo que ela havia tentado alertar desde o começo:
“Acho que fomos enganados.”
Quando ele percebeu o que estava acontecendo, porém, segundo a mãe, já era tarde demais.
Fonte: OGLOBO



