O influenciador Lito Sousa morreu nesta quinta-feira (1º), em decorrência de complicações da doença de Creutzfeldt-Jakob. Cerca de duas semanas antes da morte, ele havia recebido uma substância que nunca tinha sido administrada anteriormente em uma pessoa: o ALN-6457, desenvolvido pela farmacêutica americana Regeneron em parceria com a Alnylam Pharmaceuticals.
A substância era uma aposta experimental contra a doença de Creutzfeldt-Jakob, para a qual não existe tratamento capaz de interromper a progressão. A aplicação ocorreu por meio de uso compassivo, mecanismo que permite o acesso de pacientes com doenças graves, debilitantes ou que ameaçam a vida a medicamentos experimentais e sem registro sanitário quando não há alternativa terapêutica eficaz.
A autorização para o tratamento de Lito foi concedida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A aplicação foi revelada pela esposa do influenciador, Mila Seidl, em um vídeo publicado em 14 de setembro. Segundo ela, Lito já estava internado em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) por complicações da doença quando recebeu o composto, no fim de semana anterior.
Ainda de acordo com Mila, não houve reação adversa após a aplicação. A ausência de efeitos imediatos era relevante diante do caráter inédito da administração em humanos. A equipe médica esperava realizar exames seis semanas depois para verificar se havia ocorrido alguma mudança no quadro.

Como o tratamento experimental funciona
A doença de Creutzfeldt-Jakob está relacionada a uma proteína chamada príon. Em sua forma normal, ela está presente no cérebro sem causar problemas. Na doença, uma versão anormalmente dobrada da proteína passa a atuar como molde, fazendo com que proteínas saudáveis também assumam a conformação incorreta. Esse processo provoca danos progressivos ao tecido cerebral.
O ALN-6457 busca atuar antes dessa etapa por meio de uma molécula pequena de RNA de interferência, conhecida como siRNA. A estratégia utiliza um mecanismo natural das células para reduzir a produção de uma proteína específica.
Depois de entrar na célula, o siRNA é processado por proteínas que identificam moléculas de RNA mensageiro responsáveis por carregar as instruções para a produção da proteína príon. Esses RNAs mensageiros são destruídos antes que a proteína seja fabricada.
A expectativa teórica é que, com menor produção da proteína normal, exista menos material disponível para assumir a forma anormal associada à doença. A estratégia, entretanto, não desfaz danos já existentes nem corrige proteínas que já tenham adquirido a conformação incorreta.
O desafio de levar a substância ao cérebro
Um dos principais obstáculos para esse tipo de tratamento é fazer com que a molécula alcance o cérebro. O órgão é protegido pela barreira hematoencefálica, que dificulta a entrada de grande parte dos medicamentos administrados por via intravenosa ou oral.
O doutor em Engenharia Biomédica e especialista em pesquisa clínica Daniel Dahis explicou que o desafio não termina quando a molécula chega ao órgão. Depois de entrar na célula, ela pode alcançar compartimentos ácidos utilizados para degradar substâncias. Se não apresentar resistência suficiente, pode ser destruída antes de exercer sua função.
A plataforma desenvolvida pela Alnylam utiliza modificações químicas para preservar o siRNA e uma cadeia de gordura chamada C16. Essa estrutura funciona como uma espécie de âncora ligada à molécula e facilita sua passagem pela membrana celular.
O que já existe de evidência sobre o ALN-6457
Até a morte de Lito, o ALN-6457 não havia passado pelas fases de testes clínicos em humanos. Por isso, ainda não existem dados clínicos capazes de demonstrar sua eficácia ou estabelecer seu perfil de segurança em pessoas.
O g1 localizou um pedido de patente da Alnylam descrevendo um siRNA conjugado à C16 e direcionado à proteína príon. A descrição coincide com as características da substância autorizada pela Anvisa. Também existem materiais da empresa sobre a aplicação da mesma tecnologia em pesquisas relacionadas ao Alzheimer.
Patentes podem abranger famílias inteiras de variantes químicas desenvolvidas ao longo de anos, e o ALN-6457 provavelmente integra esse grupo.
O documento apresenta um experimento em camundongos no qual, na menor dose avaliada, houve redução de aproximadamente 15% no RNA mensageiro responsável pela produção da proteína priônica. Para Dahis, o resultado representa um sinal biológico positivo, mas não permite prever se um paciente teria alguma melhora clínica.
O experimento não avaliou se a redução da proteína normal diminuiu a formação da versão deformada. Também não demonstrou aumento da sobrevida dos animais, muito menos de seres humanos.
Segundo o especialista, os resultados indicam que a estratégia merece investigação, especialmente diante da ausência de tratamento capaz de interromper a progressão da doença. A avaliação, porém, precisa considerar as incertezas relacionadas à segurança e o risco-benefício individual.
Dados de segurança ainda são limitados
Apresentações da Alnylam a investidores realizadas em 2021 descreveram testes em ratos e primatas utilizando a mesma tecnologia de conjugação C16 aplicada ao sistema nervoso central.
Segundo esses materiais, exames clínicos e neurológicos e avaliações de órgãos como cérebro, medula espinhal, fígado e rins não identificaram alterações atribuídas à substância.
Os estudos, contudo, eram preliminares e tinham duração limitada. O pacote de segurança mais completo exigido por reguladores antes do início de testes em humanos foi concluído pela empresa para outro programa, direcionado ao Alzheimer, e não especificamente para o candidato contra a proteína príon.
Assim, a morte de Lito ocorreu antes que houvesse evidências clínicas suficientes para determinar se o ALN-6457 poderia alterar a evolução da doença de Creutzfeldt-Jakob. A resposta dependeria de ensaios clínicos com dados de segurança e da comparação dos resultados de um número maior de pacientes.



