A estratégia de mobilização digital criada em torno do chamado “Exército do Lula”, associada ao deputado federal André Janones (Rede-MG), começa a ultrapassar as fronteiras brasileiras. Grupos políticos da Argentina, França e Espanha passaram a adotar iniciativas inspiradas no modelo, registrando crescimento expressivo no número de participantes em poucos dias.
O movimento ganhou projeção após a mobilização digital que contribuiu para a virada de Lula (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL) nas eleições. A experiência brasileira despertou o interesse de apoiadores de lideranças estrangeiras, que passaram a organizar comunidades digitais para ampliar o engajamento político e fortalecer suas campanhas.
Em alguns casos, o crescimento dos grupos superou 100% em apenas dois dias. Juntos, os três movimentos estrangeiros analisados passaram de 123 mil para 249 mil integrantes, uma expansão de 102,44%.
Grupos políticos da Argentina, França e Espanha mais que dobram de tamanho

Na Argentina, o grupo Ejército del Peronismo, ligado à ala jovem e mais à esquerda do peronismo, principal força de oposição ao governo de Javier Milei, aumentou sua participação em 46,34%. Em dois dias, o número de integrantes passou de 41 mil para 60 mil.
Na França, o crescimento foi ainda mais expressivo. O grupo L’équipe de Mélenchon officielle, que reúne apoiadores do líder da esquerda francesa Jean-Luc Mélenchon, fundador do partido França Insubmissa (LFI), saltou de 57 mil para 147 mil participantes. A alta chegou a 157,89% no período.
Já na Espanha, o movimento La fuerza de la gente, criado em apoio ao primeiro-ministro Pedro Sánchez, do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), passou de 25 mil para 42 mil integrantes, crescimento de 68% em apenas dois dias.
Somados, os três grupos ampliaram suas comunidades de 123 mil para 249 mil participantes, demonstrando o alcance que iniciativas de mobilização política por aplicativos de mensagens podem conquistar em diferentes países.
Pedro Sánchez e Claudia Sheinbaum demonstram interesse na estratégia
O interesse internacional não ficou restrito à criação de grupos inspirados no modelo brasileiro. Lideranças políticas de outros países também procuraram André Janones para discutir possíveis colaborações.
Na Espanha, o primeiro-ministro Pedro Sánchez convidou o deputado brasileiro para contribuir com sua campanha política. As eleições espanholas estão previstas para o fim de novembro deste ano.
No México, a presidente Claudia Sheinbaum também demonstrou interesse no trabalho de Janones e o convidou para uma visita de trabalho. O país tem as próximas eleições presidenciais marcadas para 6 de junho de 2027.
Os convites indicam que a experiência brasileira passou a chamar a atenção de lideranças interessadas em ampliar sua capacidade de comunicação e mobilização de eleitores por meio de ferramentas digitais.
Cientista político aponta dificuldades para reproduzir modelo brasileiro
Apesar do crescimento dos grupos estrangeiros, a estratégia não necessariamente produzirá os mesmos resultados em outros países. Essa é a avaliação do cientista político Giuliano Salvarani, que aponta diferenças culturais e comportamentais como obstáculos para uma reprodução direta do método.
Segundo ele, os hábitos de utilização das redes sociais e dos aplicativos de mensagens variam de acordo com cada sociedade. Além disso, as particularidades da conjuntura política local influenciam a maneira como os eleitores participam de mobilizações digitais.
“Não acredito que a estratégia de Janones tenha o mesmo impacto nesses outros países, até porque eles possuem outra forma de se socializar nas redes sociais e nos aplicativos, que inclusive são diferentes dos que usamos frequentemente aqui. É um modelo que pode ser aproveitado, mas não necessariamente replicado”, afirmou Salvarani.
Na avaliação do especialista, isso não impede que a experiência brasileira influencie campanhas internacionais. A tendência, porém, seria adaptar as ferramentas e os métodos de mobilização às características de cada país, em vez de simplesmente reproduzir o formato utilizado no Brasil.
Polarização e tamanho do eleitorado ajudam a explicar sucesso no Brasil
Salvarani também destaca que fatores específicos da realidade brasileira contribuíram para o alcance do “Exército do Lula”. Entre eles estão o tamanho do eleitorado, a polarização política e a presença constante de discussões sobre política no cotidiano da população.
Para o cientista político, o Brasil possui uma participação particularmente intensa em plataformas digitais, enquanto os debates políticos ocupam espaço significativo nas relações sociais.
“O Brasil é um dos países que mais utiliza plataformas digitais do mundo. Além disso, a política faz parte da nossa cultura. É sobre política que discutimos nos grupos, entre amigos, na família e no trabalho. Hoje em dia mais do que futebol, fofoca ou cultura”, declarou.
O especialista acredita que a experiência terá consequências importantes para a comunicação política nos próximos anos. Na avaliação dele, o modelo de mobilização desenvolvido por Janones deverá influenciar campanhas eleitorais brasileiras durante a próxima década e poderá ser adaptado por movimentos políticos de outros países.
“O que funcionou aqui certamente vai ditar o rumo das campanhas eleitorais no Brasil pra próxima década e tenho certeza que será produto de exportação em todo o mundo. Janones inventou uma forma de mobilizar igual Guardiola aperfeiçoou o ‘Tik-taka’ no futebol do Barcelona ou como João Gilberto tocou seu violão na Bossa-Nova”, concluiu.



