Mensagens revelam suposta atuação do PCC em disputas, lavagem de dinheiro e pagamentos a policiais

Mensagens e áudios obtidos pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP) detalham como empresários e operadores financeiros investigados por suposta ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC) recorriam à facção para resolver conflitos particulares, tratavam de pagamentos destinados a policiais e movimentavam grandes quantias de dinheiro de origem ilícita.

Os diálogos fazem parte da representação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), que fundamentou a Operação Janus, deflagrada na terça-feira (21). Segundo o Ministério Público, as conversas ajudam a demonstrar o funcionamento de uma organização financeira clandestina apontada como responsável por prestar serviços ao crime organizado, incluindo integrantes da cúpula do PCC.

A operação teve como alvo um esquema que, de acordo com a investigação, atuava como estrutura financeira da facção, oferecendo serviços desde a movimentação de recursos até a ocultação da origem do dinheiro. Ao menos 13 pessoas foram presas. A Justiça expediu 18 mandados de prisão preventiva, 18 de busca e apreensão e determinou o bloqueio de até R$ 10 milhões em bens e contas dos investigados.

As investigações começaram após uma disputa envolvendo um imóvel de luxo na Riviera de São Lourenço, no litoral paulista. Conforme o MP, a análise dos celulares apreendidos nesse caso revelou indícios de um esquema mais amplo de lavagem de dinheiro, corrupção de agentes públicos e prestação de serviços financeiros ao PCC.

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Segundo os promotores, o empresário Cléber Azevedo dos Santos discutia um pagamento de R$ 2 milhões relacionado ao imóvel com Marcelo de Morais Oliveira, preso durante a operação. Em vez de recorrer ao Judiciário, os envolvidos teriam buscado a mediação da facção criminosa.

Em uma conversa de maio de 2023, Cléber afirma que uma reunião terminou sem acordo e diz que a decisão seria tomada pelo “comando”. Em outra mensagem, relata estar há um mês sem dormir por causa da disputa e afirma que o caso seria decidido no chamado “resumo de SP”, expressão que, segundo o MP, faz referência às deliberações internas do PCC.

A investigação também reúne um áudio no qual Cléber descreve o conflito envolvendo os R$ 2 milhões e solicita formalmente a intervenção da organização criminosa. Para o Ministério Público, a gravação demonstra a submissão voluntária do empresário às regras da facção.

Outro diálogo citado pelos investigadores envolve Antonio Carlos Sampaio, conhecido como “Compadre”, que sugere manter os envolvidos em cativeiro durante o conflito. Na avaliação do MP, a conversa evidencia o caráter coercitivo do chamado “tribunal do crime”.

As mensagens também mencionam supostos pagamentos destinados a policiais. Em um dos diálogos, Cléber solicita R$ 50 mil para “mandar pra polícia”. Em outra conversa, Robson Martins de Souza cobra recursos para quitar pagamentos destinados ao “39”, ao “13” e à “Seccional”, detalhando valores para cada destinatário.

Há ainda uma troca de mensagens em que Cléber pede recursos ao investigado Amjad Ahmad para realizar pagamentos a policiais. Segundo o MP, esses registros reforçam os indícios de corrupção sistemática de agentes públicos para proteger a estrutura financeira do grupo.

Os promotores também citaram um áudio gravado em julho de 2025 no qual Cléber solicita R$ 100 mil em espécie para um cliente que, segundo ele, precisava pagar policiais do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic). Para o Ministério Público, a gravação reforça a suspeita de utilização dos recursos movimentados pelo esquema para pagamento de propinas.

A reportagem informa que o g1 procurou as defesas dos investigados, mas não obteve resposta até a publicação da matéria.

Outro eixo da investigação trata da suposta estrutura de lavagem de dinheiro operada pelo grupo. Em mensagens analisadas pelo MP, Cléber afirma que o chamado “banco” administrado pelos investigados era capaz de movimentar recursos provenientes de diferentes atividades ilícitas, incluindo tráfico de drogas, criptomoedas e esquemas de pirâmide financeira.

Em outra conversa, ao oferecer serviços financeiros a Amjad Ahmad, Cléber afirma que já atendia clientes ligados a usinas, igrejas, bingos e fábricas de cigarros, oferecendo contas destinadas à blindagem patrimonial.

Os investigadores também encontraram mensagens relacionadas ao transporte de grandes quantias em dinheiro vivo. Em uma delas, Antonio Carlos Ubaldo Junior comunica ao apontado integrante do PCC Leonardo Monteiro Moja, conhecido como Léo do Moinho, que uma sacola continha R$ 498,5 mil, valor inferior ao esperado. Segundo o MP, as mensagens indicam movimentação de dinheiro em espécie em larga escala.

A investigação ainda aponta a atuação da contadora Meire Poza, ex-contadora do doleiro Alberto Youssef. Em conversas com Amjad Ahmad, ela afirma receber R$ 70 mil por mês para trabalhar exclusivamente para o grupo. Em outra troca de mensagens, orienta um dos investigados a não alterar sua declaração de Imposto de Renda, apesar da existência de inconsistências. Para o Ministério Público, os diálogos sugerem atuação na ocultação patrimonial e na manutenção da estrutura financeira utilizada para lavar recursos ilícitos.

O Gaeco também identificou mensagens que apontariam proximidade entre integrantes do grupo investigado e oficiais da Polícia Militar. Segundo o MP, o coronel Luiz Carlos Pereira Martins participava de um grupo de WhatsApp chamado “Aniversário General” ao lado de Cléber Azevedo e Robson Martins de Souza.

Embora as mensagens tenham conteúdo social e pessoal, os promotores afirmam que elas demonstram uma relação próxima entre os participantes. Também foram encontrados registros nos quais o coronel se colocaria à disposição para auxiliar os investigados e intermediar contatos com outras autoridades, incluindo o então comandante da Rota, coronel José Augusto Coutinho, e o coronel identificado como Patrício.

O Ministério Público informa ainda que planilhas financeiras e áudios mencionam policiais civis e militares. No entanto, esses agentes não são alvos da Operação Janus e, até o momento, não foram denunciados nem acusados formalmente no processo.

Fonte: G1