Mensagens obtidas pela Polícia Federal (PF) indicam que o ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, e Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”, discutiram medidas contra o empresário Vladimir Timerman, fundador da Esh Capital, após ele denunciar supostas irregularidades envolvendo o banco. Segundo os investigadores, a dupla também teria acessado procedimentos policiais protegidos por sigilo.
De acordo com relatório da PF anexado à investigação que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF) sob relatoria do ministro André Mendonça, Vorcaro afirmou, em uma conversa de 2023, que seria necessário “tomar uma medida URGENTE” contra Timerman. O documento chegou a ser tornado público por decisão do ministro em junho, mas posteriormente voltou a tramitar sob sigilo.
Timerman, acionista da Gafisa, acusou fundos ligados ao Banco Master e ao empresário Nelson Tanure de manipular operações fraudulentas envolvendo a companhia. As denúncias deram origem a um inquérito da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) contra Tanure e Vorcaro, além de uma queixa-crime por calúnia e difamação apresentada pelo Master e por seu controlador. O banco foi representado pela advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, do STF.
Segundo a Receita Federal, Viviane firmou contrato de R$ 129 milhões com a instituição financeira e recebeu R$ 80 milhões antes da liquidação do banco. Já Nelson Tanure nega ser sócio oculto do Master, hipótese investigada pela PF e pelo Ministério Público Federal (MPF).

A investigação mostra que Vorcaro encaminhou a Sicário publicações feitas por Timerman nas redes sociais em dezembro de 2023. Embora o gestor não citasse nominalmente o Banco Master ou seu controlador, ele fazia críticas a um empresário que ofereceria rentabilidades consideradas irreais em operações de crédito. Em resposta às postagens, usuários associaram as declarações ao Banco Master.
Em outra publicação, Timerman afirmou acreditar ter identificado o “Jeffrey Epstein brasileiro”, criticando uma pessoa que, segundo ele, utilizaria sua posição financeira para agir sem limites e alegando possuir informações sobre mulheres que teriam sido vítimas de abusos.
Nas conversas analisadas pela PF, Vorcaro afirma que Timerman tentava extorqui-lo e sugere pressioná-lo para prestar esclarecimentos. No mesmo dia, o então controlador do Master encaminhou ao comparsa documentos da Polícia Civil de São Paulo referentes ao indiciamento de Timerman por extorsão em um processo movido por Tanure, além de registros de outro procedimento no MPF.
Para a PF, o conteúdo das mensagens indica que Vorcaro já tinha conhecimento prévio sobre o andamento das investigações e buscava influenciar os desdobramentos envolvendo o empresário.
Horas depois, Sicário informou que integrantes do grupo conhecido como “A Turma” monitoravam Timerman continuamente. Em uma das mensagens, afirmou que estavam confirmando dados para, se necessário, assumir controle de e-mails, contas e até bloquear números de WhatsApp e perfis no Instagram do gestor.
Dois dias depois, Sicário enviou novas consultas processuais contendo informações protegidas por sigilo de Justiça.
Segundo a investigação, o monitoramento prosseguiu até 2024. Em março daquele ano, Sicário teria obtido novos dados sigilosos de inquéritos da PF utilizando o cadastro de uma servidora do Ministério Público Federal em Brasília. Os investigadores ainda apuram se o acesso ocorreu por invasão hacker ou com eventual colaboração da funcionária.
A PF afirma que o acesso aos documentos ocorreu apesar do elevado nível de sigilo dos procedimentos, levantando suspeitas sobre possível quebra dos protocolos de segurança da informação ou uso indevido de prerrogativas funcionais.
Em junho de 2024, Vorcaro, Timerman, Nelson Tanure e Maurício Quadrado, ex-sócio do Banco Master, foram intimados a prestar depoimento à Polícia Federal no âmbito da investigação relacionada ao caso Gafisa.
Nas mensagens, Vorcaro volta a reclamar de Timerman e afirma: “Mandei dar carga total no cara. Enquanto ele não tiver preso não vai parar”. Em seguida, Sicário informa ter mobilizado integrantes do grupo para acompanhar a situação e afirma possuir “acesso total e ilimitado” a documentos, perguntando se haveria outros nomes ou empresas para pesquisar.
Para a Polícia Federal, os diálogos demonstram atuação direta de Vorcaro e Sicário na condução de providências relacionadas a procedimentos policiais e indicam possível tentativa de controlar a narrativa dos fatos.
Luiz Phillipi Mourão, apontado como operador de uma milícia privada que prestava serviços a Vorcaro, morreu em março de 2026 após cometer suicídio quando estava preso pela Polícia Federal em Minas Gerais. Segundo a investigação, ele recebia R$ 1 milhão por mês para obter processos sigilosos, monitorar pessoas, intimidar desafetos e gerenciar um grupo de hackers. Mourão possuía extensa ficha criminal, com registros por crimes como furto qualificado, estelionato, associação criminosa, falsificação de documentos e evasão de divisas.
A disputa judicial entre Vorcaro e Timerman terminou com derrota do ex-banqueiro. A queixa-crime apresentada contra o gestor da Esh Capital foi rejeitada pela 14ª Vara Criminal de São Paulo por ausência de justa causa. O recurso também foi negado pela 2ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), após parecer da Procuradoria-Geral de Justiça apontar ausência de provas suficientes de dolo específico para ofender.
Pouco depois, a Polícia Federal deflagrou a primeira fase da Operação Compliance Zero, que resultou na prisão preventiva de Vorcaro e de quatro integrantes da cúpula do Banco Master, além da liquidação da instituição pelo Banco Central. O processo foi encerrado definitivamente em dezembro de 2025.
Segundo a reportagem, Daniel Vorcaro ainda não quitou a dívida de R$ 5,6 mil referente aos honorários de sucumbência, sendo alvo de uma execução judicial em São Paulo. Até o fechamento da reportagem, as defesas de Vorcaro e de Vladimir Timerman não haviam se manifestado. O espaço permanece aberto.
Fonte: OGLOBO



