A Polícia Federal detalhou, em documento que teve o sigilo retirado na noite desta quinta-feira (10), uma série de articulações atribuídas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro nos dias que antecederam a deflagração da Operação Compliance Zero, que resultou em sua prisão.
Segundo a PF, os elementos reunidos indicam que Vorcaro teve conhecimento prévio de que uma operação policial estava prestes a ser deflagrada. Para os investigadores, as informações reforçam a tese de tentativa de fuga, “sendo improvável que sua viagem ao exterior, na noite imediatamente anterior à data do cumprimento dos mandados, seja mera coincidência”.
Nesta quinta-feira, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), retirou o sigilo das principais investigações relacionadas ao Banco Master que tramitam na Corte. A decisão atendeu a uma solicitação feita horas antes pelo presidente do Supremo, Edson Fachin, e liberou o acesso a um conjunto de inquéritos, reclamações e petições vinculados ao chamado “caso Master”.
No documento, a Polícia Federal apresenta uma cronologia das movimentações consideradas relevantes para demonstrar que Vorcaro teria recebido informações antecipadas sobre as investigações.

Em 21 de outubro de 2025, Daniel Bueno Vorcaro registrou no aplicativo “Notas” os nomes de representantes da Polícia Federal que haviam participado de uma reunião reservada com o Banco Central. Para os investigadores, a anotação indica possível acesso antecipado a informações reservadas.
Em 16 de novembro, dois dias antes da deflagração da operação, Vorcaro fez uma nova anotação perguntando sobre uma eventual proximidade de um terceiro com o juiz federal Ricardo Soares Leite, responsável por autorizar medidas contra ele. Como o inquérito estava sob sigilo, a PF considera o episódio mais um elemento que reforça a suspeita de vazamento de informações.
Na manhã de 17 de novembro de 2025, um dia antes da operação, Vorcaro recebeu, às 7h28, mensagens urgentes de seu advogado, Walfrido Warde. Segundo a PF, depois disso ele alterou seus planos e, às 8h48, informou que agendaria um voo com saída de Congonhas.
A partir das 7h41 daquele mesmo dia, Vorcaro também manteve conversas com o jornalista Diego Escosteguy a respeito de uma reportagem que seria publicada. Depois das 11h, recebeu o link da matéria e o encaminhou imediatamente a Warde. O conteúdo mencionava a existência de um inquérito em tramitação na 10ª Vara Federal de Brasília.
Ainda em 17 de novembro, Warde protocolou uma petição na 10ª Vara Federal do Distrito Federal solicitando acesso ao conteúdo da investigação e citando expressamente a reportagem como fonte da informação. Ao longo do dia, segundo o documento, advogado e cliente continuaram tratando do tema, com insistência em relação a um contato com o juiz responsável pelo caso.
A PF também aponta que, naquele mesmo dia, surgiram elementos indicando que Vorcaro divulgou à imprensa a informação de que o Grupo Fictor teria interesse em adquirir o Banco Master.
Desde as 6h34 de 17 de novembro, Vorcaro manteve ainda contato com servidores do Banco Central identificados como Paulo Sérgio e Belline. Posteriormente, ambos teriam considerado “fundamental” que ele conversasse com o diretor do Banco Central Ailton Aquino.
A reunião foi articulada para ocorrer ainda naquele dia. Vorcaro sugeriu o horário das 13h, Paulo Sérgio confirmou 13h15, e Belline enviou o link da reunião às 13h35. Depois do encontro, passou a circular uma reportagem sobre a venda do Banco Master ao Fictor. Segundo a PF, a ausência de surpresa por parte dos servidores sugere um alinhamento anterior.
Na noite de 17 de novembro de 2025, forças policiais interceptaram Vorcaro no Aeroporto de Guarulhos, na Grande São Paulo, quando ele estava prestes a embarcar em um jato particular cujo destino final seria os Emirados Árabes.
No dia seguinte, 18 de novembro, foi oficialmente deflagrada a primeira fase da Operação Compliance Zero, após decisão judicial favorável aos pedidos apresentados pela Polícia Federal.
Para os investigadores, o conjunto dos fatos demonstra que Vorcaro, “ciente da futura e iminente atuação policial, se utiliza de servidores do Banco Central que lhe são subalternos (em razão do pagamento de vantagens indevidas) para forçar uma reunião virtual, no dia imediatamente anterior à operação policial”.
Daniel Vorcaro foi preso em 17 de novembro do ano passado quando tentava embarcar em uma aeronave particular que sairia do Aeroporto de Guarulhos. A informação divulgada posteriormente apontou que ele tentaria embarcar para a Europa. Para a Polícia Federal, não havia dúvidas de que o banqueiro pretendia fugir do país.
Cerca de dez dias depois, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região determinou a soltura de Daniel Vorcaro e de outros quatro executivos do Banco Master.
Segundo a PF, um dos argumentos considerados favoráveis à liberdade do banqueiro na decisão que determinou sua soltura foi justamente o conteúdo da reunião realizada com representantes do Banco Central.
“Diante de todo o exposto, conclui-se pela existência de fortes elementos indicativos de condutas de DANIEL VORCARO e associados direcionadas a proteger o núcleo dirigente da organização criminosa, mediante conhecimento antecipado de atos processuais e articulações com interlocutores em órgãos de controle, ao lado de planejamento logístico para saída do país em janela próxima à deflagração de medidas, o que, somado às comunicações com autoridades e ao acompanhamento de procedimentos internos, compõe o retrato dos ‘tentáculos’ em estruturas públicas e privadas”, afirma a Polícia Federal.
As informações foram utilizadas para embasar um novo pedido de prisão preventiva de Vorcaro, assinado em 27 de fevereiro de 2026.
Em março deste ano, o ex-banqueiro foi preso novamente.
Outro ponto presente nas investigações é uma troca de mensagens entre o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, e Daniel Vorcaro. Segundo relatório encaminhado pela Polícia Federal ao STF, os diálogos sinalizam que Moraes discutia com o ex-dono do Banco Master a possibilidade de a Polícia Federal deflagrar uma operação que teria o banqueiro como alvo.
As mensagens constam de um relatório da PF que teve o sigilo retirado pelo ministro André Mendonça em 1º de setembro.
Em 15 de novembro de 2025, um sábado, Vorcaro questionou Moraes: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”.
Quarenta e oito horas depois, na noite de 17 de novembro, Daniel Vorcaro foi preso pela Polícia Federal.
Fonte: G1



