A Polícia Federal afirmou que o empresário Victor Henrique de Oliveira Shimada, foragido da Justiça e alvo da Operação Exchange, utilizou mais de 70 empresas em um esquema de lavagem de dinheiro ligado ao tráfico internacional de drogas. Investigadores classificam o empresário como um “doleiro moderno”, responsável por movimentar recursos ilícitos por meio de uma estrutura empresarial voltada à ocultação da origem do dinheiro.
A Operação Exchange foi deflagrada nesta sexta-feira (3) com o objetivo de desarticular uma organização criminosa especializada na lavagem de dinheiro proveniente do tráfico internacional de drogas.
Segundo policiais federais envolvidos na investigação, mais de 70 empresas estão sendo analisadas por suspeita de terem sido utilizadas por Shimada para lavar dinheiro ou por manterem operações financeiras com ele.
Conforme a investigação, os doleiros atuam no mercado clandestino de câmbio e utilizam sistemas financeiros ilegais para movimentar e ocultar recursos oriundos do crime organizado.

Shimada também foi alvo de sanções impostas pelo governo dos Estados Unidos na quarta-feira (1º), por suspeita de ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC).
Ao todo, a Justiça expediu 11 mandados de prisão temporária, dos quais sete haviam sido cumpridos até a última atualização da operação. Entre os presos está Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira, também sancionada pelos Estados Unidos e apontada como colaboradora de Shimada.
Segundo a Polícia Federal, os dois utilizavam apelidos para dificultar as investigações. Shimada era conhecido como “Japa”, enquanto Stella utilizava o codinome “Lara Croft”. A acusação sustenta que Stella organizava a coleta de dinheiro em espécie e que Shimada fazia a ligação com traficantes associados ao PCC no Brasil.
Além das prisões, foram expedidos 13 mandados de busca e apreensão em imóveis localizados na capital paulista, Santos, Praia Grande e Santana de Parnaíba. A Justiça também determinou o bloqueio de bens, valores e criptoativos dos investigados, limitado ao montante de R$ 10,4 bilhões.
De acordo com a Polícia Federal, o grupo utilizava um sistema estruturado para movimentação de recursos ilícitos, envolvendo transferências de criptoativos, transporte de dinheiro em espécie, operações bancárias de alto valor e repasses entre pessoas físicas e jurídicas.
Os investigados poderão responder, em tese, pelos crimes de associação criminosa, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
Em nota, a defesa de Victor Shimada informou que tomou conhecimento da operação, mas afirmou que ainda não teve acesso às decisões judiciais nem aos elementos que fundamentam as medidas adotadas. Segundo os advogados, qualquer manifestação sobre os fatos seria precipitada antes da análise dos autos.
Quem é Victor Shimada
Victor Henrique de Oliveira Shimada é sócio da Victory Trading Intermediação de Negócios Cobranças e Tecnologia Ltda. e da empresa portuguesa Avenidas Flutuantes Unipessoal Lda., ambas sancionadas pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos.
Para o governo norte-americano, o empresário seria um “elo-chave entre membros do PCC na Flórida e traficantes internacionais”. Os EUA o acusam de lavar mais de US$ 30 milhões — cerca de R$ 156 milhões — utilizando criptomoedas para enviar recursos ao Brasil em benefício da facção criminosa, além de envolvimento em outros crimes financeiros.
No Brasil, Shimada também é investigado por suspeita de participação em operações de lavagem de dinheiro relacionadas ao caso VaideBet, que apura supostos desvios de recursos do contrato de patrocínio entre o Corinthians e a casa de apostas.
Ao anunciar as sanções, o governo norte-americano afirmou que a Victory Trading foi utilizada para lavar dinheiro desviado de um clube de futebol brasileiro, sem citar o nome do Corinthians.
Relatório da Polícia Civil de São Paulo aponta que Shimada integra uma cadeia financeira envolvendo a Victory Trading, a Wave Intermediações e a UJ Football Talent.
A UJ Football Talent foi citada na delação premiada de Antonio Vinicius Lopes Gritzbach como empresa supostamente ligada a Danilo Lima de Oliveira, conhecido como “Tripa”, apontado pelo delator como integrante do PCC.
O relatório também destaca movimentações financeiras entre a Victory Trading e a Wave, empresa que aparece em análises relacionadas ao próprio Gritzbach.
Apesar disso, a investigação não afirma que Victor Shimada seja integrante do PCC, mas sustenta que ele estaria inserido em um fluxo financeiro que cruza pessoas e empresas mencionadas em investigações sobre a facção.
Além desse caso, o empresário responde a quatro processos sem ligação direta com organização criminosa, envolvendo acusações de ameaça, violência doméstica e familiar, injúria e lesão corporal dolosa.
Em nota divulgada anteriormente sobre as sanções norte-americanas, a defesa afirmou que Shimada nega qualquer envolvimento com organização criminosa ou lavagem de dinheiro e declarou confiar que os fatos serão esclarecidos pelas vias legais.
Stella Stefanie
Segundo o governo dos Estados Unidos, Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira é parente de Victor Shimada e atuava como sua secretária.
Os norte-americanos afirmam que ela desempenhava função de intermediária na coleta de grandes quantias em dinheiro, oferecendo suporte logístico para as operações de lavagem de dinheiro investigadas.
Ela não possui antecedentes criminais nem responde a processos judiciais.
Caso VaideBet
No Brasil, Victor Shimada também é investigado no inquérito que apura o suposto desvio de recursos do contrato firmado entre Corinthians e VaideBet.
Segundo denúncia do Ministério Público aceita pela Justiça, a Victory Trading manteve intensa movimentação financeira com a Wave Intermediações e Tecnologias Ltda., empresa apontada pelos investigadores como parte do esquema.
A apuração identificou uma cadeia financeira em que os recursos teriam seguido o seguinte caminho:
Corinthians → Rede Social Media Design → Neoway → Wave → UJ Football Talent.
Investigadores também apontaram transferências da Victory Trading para a UJ Football Talent.
O Ministério Público sustenta que Shimada teria atuado como operador financeiro de uma empresa utilizada para ocultar e dissimular a origem dos recursos, motivo pelo qual foi denunciado por lavagem de dinheiro.
Em janeiro de 2025, ele permaneceu brevemente em prisão domiciliar em um processo envolvendo a Votorantim.
O BV informou que identificou movimentações irregulares em agosto de 2024 nos serviços de Banking as a Service (BaaS), comunicou os fatos às autoridades e colaborou com as investigações, atuando como assistente de acusação na ação penal.
Sanções dos Estados Unidos
Segundo o Departamento do Tesouro dos EUA, Victor Shimada, Stella Stefanie e três empresas integrariam uma rede internacional de lavagem de dinheiro ligada ao PCC investigada na Flórida. Outros seis integrantes da mesma estrutura foram presos nos Estados Unidos em janeiro deste ano.
As medidas representam a primeira rodada de sanções econômicas adotadas pelo governo Donald Trump contra pessoas e empresas supostamente ligadas ao PCC, após a classificação da facção e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas internacionais.
No comunicado oficial, o governo norte-americano voltou a classificar o PCC como a maior organização criminosa transnacional do Hemisfério Ocidental, afirmando que a facção representa uma ameaça significativa à segurança nacional dos Estados Unidos e utiliza o sistema financeiro do país para lavar dinheiro.
O subsecretário para Terrorismo e Inteligência Financeira, Gene Lange, afirmou que o governo Trump está enfrentando a crescente atuação do PCC na geração de receitas ilícitas em território norte-americano.
Fonte: G1



